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sábado, 28 de setembro de 2013

Mastite Bovina: Mitos e Verdades - Cap. 11

Para um produtor ter sucesso na pecuária de leite ele precisa ter o Know How ou o conhecimento em cinco áreas muito específicas que são os pilares que sustentam a atividade. A deficiência em qualquer um deles, mais cedo ou mais tarde, irá obrigar o produtor a abandonar o negócio. Neste momento o produtor se abraça numa série de motivos  com os quais ele tentará justificar o seu fracasso, que listo a seguir:

  1. Falta de apoio do governo; 
  2. O dolar caiu; 
  3. O dolar subiu;
  4. Alto custo da mão de obra e dos insumos;
  5. Exagero de importações de leite;
  6. Baixo preço do leite. 
Se necessário também, o produtor pode ainda recorrer aos motivos exotéricos, como:

  1. Mal olhado;
  2. Olho gordo;
  3. Praga de sogra;
  4. Urucubacas;
  5. Encostos;
  6.  e outras bobagens do mesmo naipe.  
Mas as verdade é que, em geral o fracasso depende fundamentalmente destes pilares, do trabalho incessante e de um eficaz gerenciamento financeiro.

Pilares da Atividade Leiteira
  1. Produtividade (conseguir a máxima produção por animal com o menor custo);
  2. Alimentação (Prover uma alimentação balanceada e de qualidade com o menor custo possível  para manter o rebanho saudável e com alta produção);
  3. Criação de Bezerras (Não perder uma única bezerra sequer e fazê-las parirem com 24 meses com tamanho e peso adequados);
  4. Reprodução (fazer com que as vacas produzam um bezerro por ano);
  5. Controle da Mastite Bovina (Assunto deste artigo)

Os três primeiros fundamentos da atividade leiteira, Produtividade, Alimentação e Criação de Bezerras são mais simples e podem ser dominados sem muito esforço pelo produtor. Reprodução e Controle da Mastite são mais complexos e requerem estudos, persistência e análise minuciosa de todos seus componentes. Mas vamos nos concentrar na mastite e deixemos a reprodução para outros artigo.

A seguir descrevo os conceitos básicos de Mastite, tomando as definições de gente muito mais qualificada do que eu, para depois apresentar o que fizemos na Fazenda Veredas sobre o assunto e que funcionou. Estas definições (em itálico) encontrei no BOLETIM TÉCNICO MASTITE BOVINA: CONTROLE E PREVENÇÃO de SORHAIA MORANDI COSER, MARCOS AURÉLIO LOPES, GERALDO MÁRCIO DA COSTA da UNIVERSIDADE FEDERAL DE LAVRAS DEPARTAMENTO DE MEDICINA VETERINÁRIA, que é um guia muito bom sobre o assunto. 

Existem duas formas de apresentação, que se denominam mastite clínica, quando as alterações são visíveis macroscopicamente e mastite subclínica, quando as alterações não são visíveis a olho nu (Fonseca & Santos, 2000; Dias, 2007).

Mastite clínica

“A mastite clínica caracteriza-se pelo aparecimento de edemas,aumento de temperatura, endurecimento e dor na glândula mamária ou aparecimento de grumos, pus ou quaisquer alterações das características do leite” (Fonseca & Santos, 2001, p.27).

Mastite subclínica
Por não apresentar sinais visíveis e passar despercebida pelos proprietários e pelos empregados, a mastite subclínica pode alastrar-se no rebanho, infectando outras vacas. Além disso, pode ocorrer destruição da capacidade funcional da glândula mamária, causando diminuição da produção leiteira e prejuízos à saúde do animal (Dias, 2007).

Um dos grandes problemas da mastite no rebanho é a sua prevalência silenciosa, ou seja, subclínica, determinando perdas de até 70%, enquanto 30% devem-se à mastite clínica (Santos, 2001).

O que é CCS?

Quando a glândula mamária é colonizada por algum agente patogênico, o organismo do animal reage, mandando para o local células de defesa, principalmente leucócitos, na tentativa de reverter o processo infeccioso. Essas células de defesa, somadas às células de descamação do epitélio secretor de leite nos alvéolos, são chamadas células somáticas do leite ou CCS. Portanto, quando há presença de um microrganismo patogênico na glândula mamária, geralmente, a contagem de células somáticas apresenta-se elevada, e esse aumento é a principal característica da mastite subclínica (Chapaval & Piekarski, 2000).


A CCS  quando realizada em uma amostra do leite do tanque, permite que tenhamos uma medida da quantidade de animais infectados em nosso rebanho e consequentemente da perda de produção ou seja, o tamanho de nosso prejuízo.
Pode-se dizer que uma vaca com CCS de 50 a 100 mil  está muito bem. Pelas normas atuais, até 250 mil de CCS, o produtor recebe a remuneração máxima pelo seu leitinho.


Tabela 1. Perdas na Produção de Leite e animais infectados com diferentes CSS medida no Tanque de Leite.

CCS no leite do tanque (x1.000/ml)
Estimativa da gravidade da mastite
Redução na produção (%)
% de animais infectados
< 250
Pouca ou nenhuma
Irrelevante
6
250 – 500
Média
4
26
500 – 750
Acima da média
7

± 42
750 - 1.000
Ruim
15
1.000
Muito ruim
18
±54


Fonte: adaptação de vários autores.

As Mastites são classificadas em dois grupos: Contagiosa e Ambiental.

Mastite Contagiosa
A Mastite Contagiosa é aquela que é provocada por microrganismos que são adaptados para viverem dentro do hospedeiro, ou seja, dentro da vaca. Uma alta CCS no tanque de leite significa que seu rebanho está infestado por microrganismos do tipo contagioso. E eles são disseminados principalmente durante a ordenha,  através das mãos dos ordenhadores, de tetos infectados para outros, por meio do equipamento da ordenha, bezerros, papeis toalha mal utilizados e pelas moscas.
Os principais agentes etiológicos incluídos nesse grupo são Streptococcus agalactiae, Staphylococcus aureus e Corynebacterium bovis (Langoni, 2000).
Cada um deles tem uma habita uma área específica. O S. Agalactiae (que é de fácil tratamento) habita o interior da glândula mamaria, o S. Aereus (difícil tratamento) que é facilmente disseminado porque se espalha dentro da canal do teto, interior da glândula mamária, pele do teto, principalmente quando lesada, e o que é pior, nas mãos do ordenhador, que se não desinfetadas regularmente, vão passando o S. aeurus de vaca em vaca durante a ordenha.  O Coryne (difícil tratamento) se localiza dentro da glândula e dos ductos dos tectos.

Mastite ambiental

Segundo Bradley (2002), os patógenos ambientais, descritos como invasores oportunistas da glândula mamária, não estão adaptados à sobrevivência no hospedeiro e, por isso, normalmente, desencadeiam infecções clínicas.
Segundo Bressan (2000), o grupo de patógenos desse tipo de mastite é constituído de bactérias que estão presentes em várias fontes do ambiente da fazenda como água contaminada, fezes, solo e diversos materiais orgânicos usados como cama, animal propriamente dito, os equipamentos de ordenha e o homem.
Os principais patógenos desse grupo são bactérias gram-negativas e espécies de Streptococcus que não S. agalactiae. As bactérias gram-negativas mais comumente associadas às mastites bovinas são os coliformes: Escherichia coli (nas fezes), Klebsiella (vegetais e derivados da madeira, tais como pó-de-serra e cepilho) e Enterobacter. Os Streptococcus do ambiente incluem diversas espécies, tais como Streptococcus uberis e Streptococcus dysgalactiae (Bressan, 2000; Fonseca & Santos, 2001).
De acordo com Santos (2001), a mastite ambiental caracteriza-se por uma maior proporção de mastite clínica em relação à subclínica, quando comparada com a mastite contagiosa. Geralmente, determina casos clínicos agudos de evolução rápida, com maior concentração no pós-parto e maior taxa de infecção durante os períodos chuvosos. O autor comenta que a transmissão dos microrganismos patogênicos na mastite ambiental se faz diretamente do ambiente para o interior da glândula mamária, ocorrendo, principalmente, entre as ordenhas.

Uma particularidade de destaque na mastite ambiental é que ela geralmente se manifesta em rebanhos bem manejados e com baixa CCS. Isso porque a alta prevalência de mastite subclínica e a alta CCS dos rebanhos com problemas de mastite contagiosa conferem, até certo ponto, uma proteção parcial contra os agentes ambientais. Por isso, cabe salientar que, uma vez iniciado um programa de controle de mastite, este deve ser integral, abrangendo medidas de controle tanto de mastite contagiosa quanto ambiental, pois, quando se adotam rígido manejo e higiene na ordenha, sem adoção de medidas de controle do ambiente (barro, lama, esterco, cama orgânica), pode-se obter queda significativa na CCS, seguida de surtos de mastite clínica aguda causada por patógenos ambientais. (Fonseca & Santos 2001, p.33)

Reduzindo a Mastite Ambiental: Providências

Segundo Campos & Lizieire (1993), deve-se manter um rígido controle higiênico-sanitário ambiental por meio da limpeza do ambiente de repouso das vacas, dos estábulos e da sala de ordenha, evitando o acúmulo de fezes, esterco, água parada ou lama, principalmente nos locais de permanência das vacas; afastar do rebanho vacas com mastite crônica e evitar a entrada no rebanho de animais com alguma infecção (metrites ou feridas abertas) que possam contaminar o chão.

Reduzindo a Mastite Contagiosa: Providências Adotadas Na Fazenda Veredas
  1. A primeira providência é adotar o teste da caneca com fundo preto, que identifica os animais com mastite clínica ou ambiental.
  2. As vacas com mastite clínica ou ambiental devem ser separadas e colocadas no último lote a ser ordenhado, que é o das vacas em tratamento de mastite ou em descarte de leite aguardando o período estipulado pelos antibióticos utilizados. 
  3. Uma vez realizado o teste da caneca, os tetos das vacas devem ser mergulhados numa solução de clorexidina, podendo-se usar o Agrisept ou produto semelhante. 
  4. Não usar iodo (o iodo deve ser reservado para o pós-dip) ou os famigerados produtos que produzem uma espuminha e que são muito econômicos. Se produz espuma é porque tem detergente e podem ter PH não balanceado mas o pior da espuma é que, não há uma uniformidade na aplicação do produto. Partes do teto podem não receber o produto adequadamente e o ordenhador não perceber.
  5. O produto tem que ser líquido, é preciso  ter a garantia que todo o teto será molhado e consequentemente, descontaminado.
  6. Trinta segundos depois de aplicado o produto, os tetos devem ser secos com toalha de papel. De preferência uma para cada teto, mas fique sabendo que seus funcionários nunca farão isto. Conforme-se,  pois eles usarão dois papeis apenas para os quatros tetos, que é muito mais rápido, e relativamente eficiente.
  7. Não espere que seus funcionários usem luvas: elas são incompatíveis, alguns preferem pedir demissão ou cortar cana.
  8. JAMAIS USAR ÁGUA NA LINHA DE ORDENHA. É comum os funcionários terem recaídas e darem uma lavadinha nos tetos das vacas que entram com os peitos muito sujos. Neste caso, mandem os funcionários para o tronco e aplique 10 chibatadas. 
  9. Bactérias nadam e se propagam facilmente em tetos molhados. 
  10. Se os tetos estiverem sujos, com barro, não importa, limpe com papel toalha e depois faça o teste e aplique o Pre-Dip.
  11. Li uns artigos de pesquisadores respeitáveis de escolas famosas no Brasil que recomendam uma lavadinha e uso de hipoclorito de sódio, água sanitária  e outras bobagens. Se algum senhor respeitável te recomendar isto, pegue a espingarda, solte os cachorros e chame a polícia.
  12. O pos-dipping é fundamental. Utilize Iodo 5%, No Drip. Meu preferido é o da Weizur. Um produto  No Drip funciona como um selante para o esfincter, que após a ordenha permanece aberto por algum tempo. E este é o momento mais perigoso para uma vaca contrair uma mastite. Já experimentei o ácido lático, mas por enquanto permaneço fiel ao velho e bom Iodo. 
  13. Regulagem da Ordenha é fundamental: pressão do vácuo acima do normal, pode causar ferimentos no canal do teto, que é uma fonte de infecções.  Pressão abaixo do normal, fará ordenha incompleta deixando leite em excesso que é um terreno fértil para a mastite.
  14. É muito comum os funcionários forçarem a teteiras para baixo para tirar todo o leite da vaca. Já vi casos de se colorarem garrafas pet de 2 litros com água para dar uma mãozinha extra.
  15. Infelizmente, vacas são criaturas que se acostumam facilmente e aquelas que foram habituadas com a pressão extra no final da ordenha, dificilmente liberarão todo leite sem ela. Massagens tem o mesmo efeito. Acondicionam a vaca e reduzem a produtividade na ordenha, demandando tempo  e custos extras. Mas nunca deixe que uma novilha recém parida adquira tais hábitos.
  16. E por falar em novilhas, crie os lotes de novilhas, para mantê-las sem riscos de serem contaminadas pelas vacas do rebanho.
  17. Fazer os testes de CMT ou análises individuais de CCS. Ajuda mas não muito. Se o rebanho estiver contaminado com mastite sub-clínica, fica praticamente impossível separar o joio do trigo, ou seja, vacas com mastite sub-clinica das vacas sadias.

Tratamento da Mastite Clínica
  1. A maioria dos microrganismos são suscetíveis a antibióticos e existe uma variedade imensa de produtos para combate a mastite na forma de pomadas intra-mamárias, mas a maioria não serve para muita coisa, seja por ineficiência do produto ou resistência adquirida pelos microrganismos. 
  2. Um regra geral é que, poderemos tratar uma vaca apenas com pomadas intra-mamárias quando ela não apresenta inchaço, febre ou vermelhidão.
  3. Havendo inchaço, ou outros sintomas, deve-se usar em conjunto, um antibiótico injetável de largo espectro e sempre manter a temperatura do animal sob controle.
  4. Uma atitude sensata é: colher uma amostra do leite tão logo se detecte a mastite, para se fazer um antibiograma se necessário. Mas um antibiograma demora tanto para ser realizado, que quando sai o resultado não serve para muita coisa. Se você esperar pode perder o animal.
  5. Quantos mais animais na ordenha, maior a possibilidade de se criar patógenos resistentes  mesmo aos de última geração e, cuidado, você pode ser seduzido por produtos caros e que prometem milagres. O único milagre que pode acontecer é algum deles funcionar.  Na maioria das vezes, curam pela metade, o que significa que a mastite volta pior ainda.
  6. REGRA BÁSICA: Quando tudo parece perdido e nada parece funcionar, lembre-se da velha e boa terramicina. Mas use apenas a original, que tem descarte de 4 dias. 
  7. NUNCA DESISTA pois uma vaca bem alimentada sempre irá vencer a infecção. Cuide para que ela sobreviva, e fortaleça suas defesas, que ela irá se curar sozinha. 

Homeopatia é Solução?

O Princípio que norteia a homeopatia é muito interessante, que é o de fortalecer as defesas do animal, para que ele possa debelar a infecção sozinho. Infelizmente, testei diversos produtos por dois anos, e não vi melhoras,  que só aconteceram quando adotamos as medidas descritas acima. Elas permitiram uma redução na taxa de CCS para praticamente a  normalidade em menos de três meses, o que 2 anos de uso continuo da homeopatia não possibilitou. Na verdade, o indicador de CCS permaneceu por dois anos o mesmo.  Estamos há quase quatro meses sem homeopatia e até agora tudo está dentro da normalidade e melhorando. Como acontece com esta industria, os produtos são muito caros, penso que em função da penetração reduzida que não permite uma produção em massa. Mas, sem preço, vão continuar com um mercado muito limitado e o que é pior, sem que se saiba se servem para alguma coisa ou não.


Complexos Vitamínicos Resolvem?

Ajudam mas não curam e são demasiadamente caros e não possuem custo benefício. Alimente suas vacas adequadamente, com áreas de sombra e água de qualidade, acho que é o suficiente.

Água

A qualidade da água utilizada na limpeza da ordenha e dos resfriadores de leite é fundamental. Por duas vezes tive problemas com o poço artesiano, numa delas por quase um mês utilizei a água de uma mina da propriedade. Uma mina que nasce e morre na propriedade e cuja água vem canalizada da fonte até a caixa água utilizada para bombeamento para as caixas principais. E em todas ocasiões vi Contagem Bacteriana Total ou CBT aumentar aritmeticamente e casos de mastites mais frequentes. Outros problemas podem ser vistos com as bezerrinha que apresentam índices maiores de diarreias.

Limpeza da Ordenha

Vou comentar rapidamente sobre este item, pois acho que esta é a parte que todos sabem o que fazer:

  1. Terminada a ordenha, o fundamental é fazer o enxague, com água a 45 graus, nem mais nem menos. Aqui na Fazenda Veredas, o enxague é feito até que não haja sinais de leite  na água, o que normalmente acontece com 3 ou 4 ciclos;
  2. Depois, faz-se a limpeza com com o detergente alcalino, com água a temperatura de 72 graus. Tão logo a temperatura da água caia para 45 graus deve-se finalizar o processo com  um enxague que não deixe vestígios do produto na ordenha.
  3. A limpeza com detergente ácido deveria ser diária, mas isto toma um tempo precioso dos funcionários e passamos a fazê-la duas vezes por semana. A limpeza deve ser feita com água na temperatura de 45 graus.
  4. Antes da ordenha é recomendável a limpeza com sanitizante para eliminar as ultimas bactérias, mas ela só tem alguma importância quando você conseguiu reduzir seu CCS para uns 350 mil pois,  para se chegar aos 250 mil você tem que usar todos expedientes possíveis porque as conquistas são nos detalhes.   Se seu CCS está na faixa de 4 dígitos o sanitizante tem pouco significado. Primeiro você tem que trazê-lo para abaixo de 400 mil e para isto acontecer é preciso que você faça uma revolução nos seus procedimentos, que começa com a conscientização dos seus funcionários, através de palestras e da visualização dos resultados das novas rotinas implantadas. Prêmios de resultados são eficazes. Utilizamos nas Veredas premiação por incrementos na média de leite produzido por vaca. Seu funcionário vai entender rapidamente que, reduzir uma CCS de 1 milhão  para 250 mil significa um incremento 20% na média de leite por vaca. 


"não existe nada mais crítico na atividade leiteira do que a ordenha, e a maneira como ela é realizada separa o bom produtor do tirador de leite. Aquele produtor que “não tem tempo”, ou “não acha necessário”, ou ainda “acha muito caro” lavar e sanitizar os equipamentos conforme as recomendações técnicas, DEVE PROCURAR OUTRA ATIVIDADE".Bressan et al. (2000, p.47) 



quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Cercas Elétricas e o Pastejo Rotacionado - Capitulo 10

Fazenda Veredas 28/01/2013
As cercas preferidas pelos pecuaristas do passado eram as de arame farpado que depois cederam espaço para as cercas de arame liso, chamadas de Cercas Paraguaias. Penso que se fossem realmente boas, não seriam chamadas de Paraguaias, mas esta é outra história. Ainda assim são as cercas mais utilizadas no Brasil.

Com  a necessidade de se conseguir uma maior produtividade por hectare, pois os criadores de gado já não aguentavam mais aquela lorota de se criar uma vaquinha por hectare de terra, os pecuaristas passaram a utilizar cada vez mais as técnicas de pastejo rotacionado que, como sabemos, consiste em subdividir os pastos em pequenos piquetes, nos quais as vacas pastejam por um a três dias no máximo, que exigiram novas  soluções, mais econômicas e eficazes,  para a construção de cercas para bovinos.

E hoje nada mais eficiente e barato que uma cerca elétrica bem planejada, executada e operada, pois do contrário irá provocar choro e ranger de dentes no pobre pecuarista.

Cercas Elétricas Exigem Planejamento Sofisticado


Piquetes Pasto 3 - Fazenda Veredas
Se você é um pecuarista a moda antiga e não entende muito de eletricidade e não está disposto a recorrer aos conhecimentos de um técnico no assunto, melhor não se atrever a instalar cercas elétricas. Continue com as cercas de Arame Farpado ou Paraguaia. Dizem por ai que valas cheias d'água e com alguns jacarés também funcionam.

Explico, uma cerca elétrica é uma tecnologia sensível, entre outras coisas, às mudança climáticas e as bobagens  que, seus funcionários fatalmente irão praticar. 

Então, o primeiro passo é o projeto dos piquetes e ele deverá ser executado utilizando o Google Earth, que é o programa do Google que permite a nós, ao governo e ao MST, a visualização de nossas propriedades através de imagens de satélites. É de graça e simples de usar. Caso você não tenha familiaridade com Internet, solicite ajuda de um técnico para ir até sua propriedade e fazer o projeto do conjunto de piquetes com ajuda de um GPS. Se ele aparecer com uma trena, solte os cachorros e chame a polícia.

Todo sucesso no uso do pastejo rotacionado e consequentemente das cercas elétricas dependerá deste planejamento e do projeto final dos piquetes, seus corredores de acesso,   cochos de água, sal e áreas de sombreamento.

Um Energizador Potente e de Qualidade

O Energizador é o gerador de pulsos de alta tensão (até 10.000 V) e de curta duração (baixa potência) para não colocar em  risco a saúde do ser humano e do animal. Portanto este é componente mais importante de uma cerca elétrica e deverá ser adquirido de fabricantes idôneos e bem conhecidos no país. Fuja dos Energizadores de Baixa Potência,  pequeno alcance e baratinhos. Não servem apara nada. 

Na Fazenda Veredas, devido a quantidade extensa da malha de arames e fios eletro-plásticos, pois são mais de uma centena de piquetes, tivemos a necessidade de trabalhar com 3 aparelhos energizadores. 


Cada energizador tem uma determinada potência que define seu alcance, de 10 a 300 Km, Km, mas o alcance não quer dizer muita coisa. O mais importante é o raio de alcance dos aparelhos que normalmente é de apenas 6% do comprimento total. Assim, um aparelho de 30 km de alcance, por exemplo, têm um raio de ação de 2 km no máximo e dentro deste raio, poderia se utilizar os 30 km de cercas indicados no rótulo do fabricante, mas isto na teoria. Na prática o alcance é bem menor, devido a principalmente as perdas nos fios e fugas ao longo das cercas, que são virtualmente impossíveis de se evitar, principalmente nas chuvas quando o capim cresce e rouba muito da potência do energizador.

Mas se você é um latifundiário e tem Kms e kms de terras, não se preocupe, existem energizadores com placas solares e baterias que podem ser instalados em qualquer ponto remoto da sua propriedade, com exceção de cavernas e matas fechadas. Claro que, em sendo um latifundiário você nem vai querer saber de pastos rotacionados muito menos ler este blog. Vai criar seus boizinhos com se fossem búfalos selvagens,  livres na imensidão das pastagens. Um beleza. 

O Aterramento

Você irá encontrar diversos estudos, de autores seríssimos que discorrem com toda pompa e circunstância possível  sobre como montar o aterramento ideal para sua cerca elétrica. Verdadeiras teses de doutorado, mas não perca seu precioso tempo. Lembre-se que na estação da seca, a camada superficial do solo estará completamente seca e sua condutividade será praticamente zero e portanto as vaquinhas irão atravessar suas cercas elétricas como se elas não existissem. Para um aterramento mínimo razoável utilize 3 hastes de ferro galvanizado espaçadas em linha de 3 em 3 metros. Claro se você é do tipo detalhista que costuma queimar dinheiro em locais públicos, siga os manuais.

Mas se na seca o gado irá passar como fantasma pelas cercas, o que fazer? Só há uma solução: use um segundo fio na cerca, o chamado fio terra. O gado ao encostar as canelas no fio terra e no fio energizado irá receber um choquinho de uns 9 mil volts e pensará duas vezes em atravessar aquela cerca. Mas lembre-se, não adianta você sair puxando um arame por toda cerca para levar o famoso terra que está localizado próximo ao curral. É preciso enterrar outras barras ao longo das cercas para garantir um aterramento adequado. Como eu não tenho muita paciência, utilizo uma das melhores invenções já criadas para cercas e abandonadas, pois no Brasil coisas muito boas não tem futuro, que é o vergalhão de ferro galvanizado da Gerdau, que permite a construção de cercas elétricas ou Paraguaias muito rápidas. Utilizando o vergalhão em pontos estratégicos das cercas obtenho um aterramento muito bom. O produto não foi feito para isto mas e daí? Consigo unir duas funcionalidade com um produto só e que se danem os técnicos.
Vergalhão da Gerdau


Diferentes Modelos de Cerca para cada Raça de Bovinos.

A cerca mais comum e mais barata é a de um fio, colocado a 80 cm do chão e é utilizada para gado leiteiro adulto.

Para as raças Zebu, como o Nelore, recomenda-se 2 fios, um a 80 cm do chão e outro a 1,10 de altura. Mas esqueça os manuais. 

Use um fio energizado a 80 cm do chão e outro terra a 1,30 m do chão, porque o gado Nelore está saltando cada vez mais alto, talvez devido as proximidades das olimpíadas no Brasil. Se você possui vacas com bezerros, terá que  usar outro fio terra a 30 ou  40 cm do chão. Mas,  tenho conseguido conter o gado Nelore sem bezerros em apenas 2 fios. Se tiver bezerros baixe o fio energizado para 60 ou 70 cm.

Dizem por aí que determinadas raças brasucas,  as chamadas mestiças, mistura de tatu com cobra, além dos três fios, deve-se usar uma tela por cima pois o gado voa.  Mas isto deve ser maledicência da oposição. Mas vamos falar de gado de verdade e esqueçamos as anomalias da natureza tupiniquim.

Fio Eletroplástico ou Arame Liso

Arame de aço galvanizado (arame liso) é tão antigo e ineficaz para cercas elétricas quanto uma máquina de escrever para um escritório moderno. Tem muita gente que nem conhece máquina de escrever. Arame Liso  só serão empregados no futuro nas cercas permanentes das divisas das propriedades, mesmo porque você não pode ir eletrificando suas divisas sem permissão dos vizinhos. 

Os fios eletroplásticos são leves, baratos e fáceis de instalar e exigem madeiramento igualmente barato: esticadores de 4 a 7 cm de diâmetro que custam a bagatela de R$ 3,50 a unidade. E lembre-se, quanto menor o diâmetro do poste do eucalipto, mais durável ele é, pois o o tratamento químico consegue penetrar mais facilmente. Postes de diâmetros maiores, normalmente ficam ocados após uns 5 anos, justamente onde o produto químico de proteção não penetrou. 

Outra vantagem dos fios eletroplásticos é a facilidade na manutenção da cerca em caso de rompimento do fio. Basta um nó e espichar novamente o fio com as mãos que a cerca está recuperada. Adeus espichadeiras perigosas, alicates e outras bobagens.

Esticadores e Postes

Use esticadores de Eucaliptos de 4 a 7 cm de diâmetro de 2,20 de comprimento. Enterrar o esticador numa profundidade de 70 cm. Não use postes de 1,80 m de comprimento caso você pretenda trabalhar com gado nelore. Como ninguém sabe do futuro, melhor optar sempre pelo postes de 2,20 que custam 50 centavos a mais que os de 1,80 m.

A distância entre postes depende exclusivamente do relevo do terreno.


Isoladores.

Nos esticadores utilizar somente castanhas isoladoras pretas, modelo econômico. Nos postes intermediários, deve-se furá-los e instalar isoladores tubulares (mangueiras, sempre da cor preta, pois tenho observado que as de cor laranja, se deterioram com rapidez).

Tronqueiras ou Colchetes
Usar fio eletro plástico preso a um isolador castanha. O cabo isolador para a abertura e fechamento do colchete, deve ser construído com arame liso galvanizado e uma mangueira preta rígida 3/4 que envolverá o arame, o qual deverá ter numa extremidade um gancho e na outra um anel fechado para prender o fio eletro plástico, conforme se pode ver na figura ao lado.  Tudo construído com um simples alicate. Até o momento foi a forma mais segura que encontrei de se fazer um colchete. Molas e outros apetrechos vendidos no mercados são muito úteis para dar choquinho nos peões.
Atenção: um colchete deve ser sempre desenergizado.  Isto significa que ele apenas dá choque quando fechado. Abrindo-se o colchete, pode se jogá-lo ao chão pois estará desenergizado. Os peões têm o péssimo hábito de abrirem os colchetes do alto do cavalo e jogá-los ao chão. Não descem nunca dos cavalos, pois têm medo dos animais perigosos existentes no capim como carrapatos e formigas. 


Corredores

Os corredores devem ter 6 metros de largura para impedir que, o gado, principalmente o Nelore danifique as  cercas e também para  facilitar entrada de máquinas agrícolas nos piquetes. Outra vantagem do piquete largo é que o próprio corredor se transforma num piquete. 


Passagem da Linha Mestra por Porteiras

Deve ser sempre aérea a 4,50 metro de altura, utilizando postes de eucalipto, por exemplo. Evite usar cabos subterrâneos. Só dão problemas. Problemas de isolação, de acidentes, etc.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Criando Bezerros Holandeses ( Tucuras) - Capítulo 9

Enquanto não se conseguir  um gado tropical que possamos classificar como verdadeiramente leiteiro, o produtor brasileiro terá que usar o gado europeu, geralmente  o holandês para a produção de leite. Um gado cuja temperatura de conforto está entre 0 e 16 graus célsius,  ou seja um gado que definitivamente não se enquadra ao nosso padrão climático. 
Diversos selecionadores heroicos estão tentando conseguir o verdadeiro Gir leiteiro, com boa produção de leite, mansidão, longa lactação, precocidade e, o mais difícil, produzir leite sem o bezerro na sala de ordenha ou sem o uso de ocitocina sintética. Um trabalho digno de Hércules.
Por enquanto, o que temos é o híbrido Girolando, uma mistura do sangue Gir com o Holandês. Dá para o gasto, mas se voltamos muito para o holandês começa-se a evidenciar a fragilidade ante os rigores do clima daqui e a sensibilidade aos parasitas tupiniquins como o carrapato. Se derivamos para o Gir, produzimos um animal rustico, bom de coices e mais adequado para se pendurar num gancho de açougue. Só agora aparecem os primeiros touros provados girolandos e que são relativamente bons, mas que ainda perdem longe dos holandeses puros. Mas o que isso tem a ver com bezerros holandeses? Nada, ou quase  nada.

No hemisfério norte as coisas são mais simples, como o gado holandês é adaptado as condições dali, as bezerras são criadas para produzirem leite e os machos são criados para produzirem carne. Simples assim, mas aqui  não, não se pode criar um bezerro holandês como se fosse um nelore, que sobrevive em nossas pastagens degradadas, comendo ramos, folhas, restos de capim seco e terra. Se você fizer isto, os holandesinhos vão passar desta para outra melhor rapidinho, morrendo de inanição ou tristeza parasitária, transmitidas pelos  companheiros carrapatos que inundam nossos campos. E o que fazer então pois, a não ser que você use semem sexado em todo rebanho, o que é impossível, vai nascer 50% de fêmeas e 50% de machos. Os fazendeiros mais "cruéis" simplesmente matam as crias machos ao nascerem, o que é uma crueldade sem limites. Outros menos cruéis, terceirizam a morte dos bezerros, ao doá-los para quem quiser pegar. Eu, que não nasci no ofício da matança, tento criá-los da melhor maneira possível, que resumidamente é a seguinte:

Assim que nasce o bezerro, ele é mantido com a mãe por 3 dias, alimentando-se do colostro fundamental para sua sobrevivência.

Depois vai para o bezerreiro e alimenta-se com 2 litros de leite pela manhã e 2 litros a tarde durante 15 dias. Primeiramente apenas leite in natura e depois apenas leite em pó, cujo custo é a metade.

A partir do sétimo dia, os bezerros já recebem ração 24%, embora os especialistas recomendem ração com teores de 18% de proteína.  Não importa, continue a fornecer ração 24% que terá resultados melhores, pois nesta fase proteína é fundamental. O volumoso é o próprio capim tifton ou grama estrela existente no bezerreiro.

Aos 2 meses de idade, passam então para um piquete de grama estrela, recebendo 2 Kg de ração 24% dia, permanecendo ali até os 6 meses de idade, quando são levados para outroa área, com piquetes de capim braquiara, o qual permanecem até atingirem os 300 Kg, entre o decimo quarto ou decimo oitavo mês, dependendo de uma série de coisas, como custo dos concentrados e cosequentemente qual foi utilizado em sua suplementação e  da disponibilidade e qualidade da pastagem.

Na estação da seca, além do pasto seco, sua alimentação é complementada por sal proteinado a vontade e 1,5 de casquinha de soja ou 1 Kg de caroço de algodão, dependendo do preço de cada um. Na ausência de casquinha ou caroço, eles recebem 1,5 de polpa cítrica. Isto garante o atendimento aos requisitos de energia mas um deficit de proteína de 100 a 300 grama/dia, dependendo de qual sub-produto foi utilizado, possibilitando uma taxa de lotação de 3 unidades animal (450Kg) por hectare, o que é muio significativo nesta época do ano. A partir dos 300 Kg os bezerros comem apenas pasto mais sal mineral ou proteico dependendo da época do ano.

Custo do bezerro ao longo do tempo:

2 meses =>  R$ 130,00
15 meses => R$ 630,00

A partir daí, o custo do bezerro holandês é semelhante ao de um bezerro nelore, pois ele já está adaptado aos rigores do ambiente. Dependendo do preço da arroba do boi dá até para ganhar um dinheirinho. Tendo sorte pode-se vender um ou outro como tourinho. 


    

sábado, 1 de setembro de 2012

Silagem de Milho ou Cana de Açúcar? - Capitulo 8

Esta é uma questão angustiante que terá que ser respondida por todo aquele que queira se aventurar na atividade leiteira. Eu diria que a melhor resposta para esta questão é: não produzir leite de forma alguma, mas se você é um daqueles românticos incorrigíveis  que sonha em produzir este nobre alimento, deixo aqui um pouco de minha pequena experiência no assunto.

A silagem de milho é sem dúvida alguma o melhor volumoso possível que você pode escolher. Claro, a pastagem é melhor que qualquer coisa mas, na seca os pastos estarão secos, a não ser que você use irrigação, mas esta é outra história. Se você está iniciando na atividade leiteira não se atreva a irrigar pastagens, a menos  que você tenha uma bom conhecimento no assunto mas, se você tiver experiência nesta área, com certeza não estará lendo este simples blog, então voltemos a silagem de milho e pare de me perturbar com estas questões subjetivas e desencaminhantes.

A silagem de milho é um alimento nobre, pois fornece até o dobro de energia de qualquer outra forrageira e,  por possuir um teor baixo de FDN (Fibra em Detergente Neutro) permite um maior consumo de matéria seca pelo animal. Um baixo FDN implica numa taxa de fermentação  ruminal mais alta e consequentemente no esvaziamento mais rápido do rúmen. Mas deixando de entretantos e indo direto aos finalmente,  isto se traduz em maior produção de leite, que é o que, efetivamente interessa ao caro leitor. Então grave isto, alimentos   com FDN abaixo de 50% permitem que eles sejam consumidos muito mais rapidamente que outros  com alto FDN. Por isto a polpa cítrica (FDN = 23) é um excelente complemento na nutrição animal. De rápida fermentação, fornece uma quantidade considerável de energia ao animal,  equivalente a uns 5 Kg de silagem. 

Mas, tudo na vida,  tem seu lado ruim: a silagem de milho é a mais cara das forrageiras e isto principalmente devido a sua baixa produtividade, no máximo 60 toneladas de matéria verde por hectare ou 20 toneladas de matéria seca/hectare. Se você  é principiante contente-se com 30  ou 40 toneladas de matéria verde por hectare. Matéria seca, é o alimento quando extraída toda sua água, pois como sabemos água não engorda nem dá leite, embora seja necessária em ambos processos.

Mas chega de lero lero. Quanto custa isto? A resposta é R$ 80,00 a tonelada para você produzir e para comprar de terceiros, uns R$ 130,00/ton. Cada hectare, alimenta 10 unidades animal (450 KG) durante 6 meses, representando um custo diário por animal de R$ 2,00 para silagem produzida na fazenda e de R$ 3,25 quando adquirida de terceiros. Lá se foram de 3 a 4 litros de leite dia só para pagar o volumoso e não adianta tentar convencer as vacas a fazerem dieta. No mundo animal ainda não existe a figura do costureiro que impõe os modelitos magricelas às nossas mulheres ou como são conhecidas, varas de espantar peru.

No outro extremo das forragens, mais precisamente na seção dos pobres, está a cana de açúcar.  Uma forrageira de péssima qualidade e alta FDN, que permanece até 24 horas no rúmen do pobre animal, enquanto este trabalha compulsivamente,  sem tréguas, para digeri-la. Mas tem uma razoável quantidade de energia e quase nada de proteína (1,5%). Mas é muito produtiva, até 120 toneladas por hectare e o que é melhor ainda, não precisa ser plantada todo ano. O Canavial pode durar de 3 a 8 anos dependendo se a colheita for mecanizável ou não. O custo de manutenção anual por hectare mal chega a R$ 1.000, e podemos trabalhar com  custo por tonelada na faixa de R$ 20,00, o que é uma bagatela. 

E mesmo se produzindo 20% a menos de leite que quando se usa silagem de milho, ganha-se mais por litro de leite, a não ser que, você precise contratar um funcionário só para o trato dos animais com a cana. Neste caso, prefira a silagem de milho, nem tanto em função dos custos, mas quanto menos funcionários você tiver melhor. Se possível coloque um robot na sala de ordenha, melhor ainda.

Se você tem água em abundância, uma possibilidade seria começar adquirindo silagem de milho e uma vez adquirido experiência no novo negócio passe a considerar a possibilidade de pastagens irrigadas com Tifton 85. Uma maravilha, que irá reduzi e muito seus custos de concentrados.

Entre a cana de açúcar e a silagem de milho existem diversas outras forrageiras, como sorgo, milheto e mesmo capim. Não perca seu tempo com estas bobagens.  Ou você escolhe o produto de melhor qualidade ou escolhe o mais barato. Assim como não existe mulher meio grávida também não existe forrageira de qualidade e preço médios. Isto é coisa de desocupado.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Produzir Leite é Bom Negócio? Capitulo 7 - Parte 2

No artigo anterior comentei sobre os modelos atuais de produtores de leite e aqueles que,  penso eu, vão permanecer na atividade e, se mesmo assim, você está curioso com o negócio, vou comentar  sobre  as coisas boas e as ruins da atividade leiteira.

Quando abandonei o mundo glamouroso das telecomunicações em 2004 e decidi me aventurar no universo empoeirado e deselegante do mundo rural, muitos amigos diziam, você está trocando o dinheiro, a vaidade e o stress pela qualidade de vida. Minha esposa, oriunda de uma família tradicional de pecuaristas falou simplesmente: você perdeu o juízo.

Nem uma coisa nem outra: na verdade lidar com animais, com a terra, sentir a vida pulsando em cada lugar, não tem preço, é algo único que poucos podem experimentar. Mas tudo nesta vida tem seu preço. Vamos portanto, decifrar este negócio por partes:

Dificuldades:

1 - Uma atividade que não pode parar


Existem 3 tipos de empresas
  • As que trabalham cinco ou seis dias por semana
  • As que não trabalham dia nenhum (estatais)
  • E as que não podem parar e neste tipo,  se encaixa a atividade leiteira.
Então, tenha em mente esta lição número um: a atividade, faça chuva ou faça sol, não pode parar, nem no natal nem em dia nenhum. Isto a princípio parece contornável, mas com o tempo lhe trará um stress parecido com o do mundo dos executivos.

2 - Pessoas não querem viver no campo


O ser humano é um ser social e o que ele quer mesmo é barulho, multidão, shoppings e as benesses e os horrores de uma cidade. Não adianta você tentar convencê-lo com os prazeres da vida bucólica, com o ar limpo, o silêncio e outras bobagens. Não, ele quer ficar preso na hora do rush, gritar e buzinar como um louco, beber todas no boteco da esquina, discutir futebol e mulheres com os amigos. Enfim, um ser social, uma criatura elevada, quase espiritual.

3 - Máquinas quebram e na pior hora possível


Antigamente para se produzir leite, precisava-se de umas poucas vacas, um balde, um banquinho e uma mão de obra barata e escrava, que trabalhava feliz sete dias por semana. Hoje você precisa de muitas vacas, uma ordenhadeira mecânica, um resfriador de leite, tratores, máquinas agrícolas, veterinários, uma infra-estrutura sofisticada e complexa, e obviamente uma mão de obra que deixou de ser barata, na verdade está muito cara, trabalha pouco, é insatisfeita mesmo com todas as regalias possíveis e tem folgas semanais. Para piorar, as máquinas também parecem também dispostas a largar o campo e quebram, com menos frequência que os funcionários, mas quebram. E estes pequenos problemas são como o veneno de uma abelha, ele é acumulativo, você vai contornando, administrando  mas um dia você realmente percebe todo o seu efeito e o resultado é stress. 

4 - A produtividade precisa crescer em média geométrica

Em 2004, uma fazenda de leite para ser produtiva, precisava produzir 10 mil litros de leite/hectare. Oito anos depois consegui atingir 20 mil litros/hectare, mas os padrões mudaram mais rápido e hoje o ideal,  é se produzir 60 mil litros/hectare, muito embora a produtividade média nacional  não passe de míseros 2 mil litros/hectare. Mas se você quer produzir leite, esqueça o Brasil e seus números, pois a realidade da industria láctea no país ainda está no século passado. Na verdade a  pecuária de leite tupiniquim, está anos luz atrás da avicultura e da suinocultura brasileiras. Mas chegaremos lá  e seremos os primeiros do mundo nesta área também.

5 - Globalização e falta de uma política governamental para o setor

O produtor de leite brasileiro nunca recebeu subsídios como o americano e o europeu, que lhes permitiram criar uma infra-estrutura invejável, tecnologia e o melhor rebanho possível. O pobre produtor brasileiro, sempre marginalizado, sobreviveu como pôde e o resultado é a baixa produtividade do setor, que faz governo e ecologistas criticarem os pobres coitados que ainda garantem o nosso leite de cada dia. E hoje tudo é muito mais complicado, pois os preços dos insumos dependem de Chicago, e uma seca como aconteceu nos EUA, faz os preços do milho e da soja atingirem valores nunca antes vistos por aqui, embora a produção nacional venha batendo recordes em cima de recordes. Mas um governo de ignorantes como o nosso, de repente toma uma medida estupida pensando em aumentar as exportações e deixa o dólar subir como um foguete. O resultado é que um saco de soja saiu de 32 reais para 80 reais e os nossos agricultores preferem exportar para os Chineses, claro, do que vender aqui. É bom para o país pois, entra mais dólares, mas a inflação vai voltar com força e ai os economistas Petistas provavelmente tomarão outra atitude igualmente estúpida. Para piorar as coisas ainda mais, geralmente quando os preços dos insumos estão altos, acarretando maiores custos por litro de leite, os preços pagos ao produtor caem, pois o Brasil precisa socorrer seus irmão Argentinos e Uruguaios e as multinacionais do setor, passam a importar leite caro de suas matrizes, que suspeito ser uma fonte de remessa de divisas para o exterior, da mesma forma que faz uma multinacional do setor automobilístico ao importar um simples parafuso por 10 mil dólares a unidade.

Vantagens

1 - Não existe esforço nenhum para vender o produto

Este é um dos dilemas das empresas e um de seus maiores custos. Sem vendas não existe receitas. O produtor de leite vende para quem quiser, e na verdade o mercado funciona ao contrário, é o Laticínio que investe em equipes que irão disputar com os concorrentes o leite do produtor.

2 - Quanto mais se produz maior é o valor recebido por litro de leite

Normalmente na industria, quanto mais se produz, maior a economia de escala, e se há excesso do produto,  menor é seu valor. A economia de escala no leite trabalha a favor do produtor. Quanto mais ele produz, mais ele recebe do Laticínio. Claro, se todos produtores produzem muito e inundam de leite o mercado, os preços despencam. Mas como o Brasil é um país continental, norte e sul tem chuvas em diferentes épocas do ano e isto contribui para uma estabilidade maior de preços no país. 

3 - O clima e a terra são generosos no Brasil

País nenhum no mundo possui as vantagens do Brasil, que na estação das chuvas pode por 6 meses manter seus rebanhos em pastagens tropicais, com suplementação por concentrados proteicos e energéticos para que os rebanhos atinjam a máxima produção. E na estação da seca, acontece algo extraordinário, o produtor tupiniquim pode contar com a cana de açúcar, um volumoso de baixa qualidade mas muito barato e que permite, com a suplementação proteica, uma media de leite muito boa. E para o gado solteiro, temos as pastagens, agora secas, mas que fornecem o chamado feno em pé, com uma quantidade de energia razoável e que com uma fonte adicional de proteína, permite o alimentar adequadamente o gado que não está em lactação bem como as novilhas ou o gado de corte. Outras fontes de volumosos, mais nobres e caras são as silagens de milho sorgo e até mesmo capim, que permitem uma produtividade maior. E temos ainda diversos sub-produtos, como polpa cítrica, caroço de algodão, casa de soja e outros que podemos utilizar para a suplementação dos bovinos.

4 - Venda de animais constitui uma fonte ótima de receitas

O leite é um produto primário de uma fazenda, mas a criação de animais, especialmente os de alto valor genético,  constitui um produto de alto valor adicionado. Assim, a venda de novilhas transforma-se numa ótima fonte de renda para as fazendas produtoras de leite, chegando a ser, às vezes muito mais rentável que que o leite em si próprio. E no Brasil, produzir uma novilha por inseminação artificial, sem utilizar transferência de embrião ou FIV, é extremamente barato senhores, em torno de R$ 1.000 reais, embora a maioria dos produtores jurem de pés juntos, que o preço é muito maior. Não deem muita atenção, pois, neste mercado há muito mais mentiras que verdade. Estas novilhas serão vendidas com preços a partir de 3.000 reais podendo chegar facilmente em leilões de elite de 6 até 8 mil reais por cabeça.

5 - A pecuária de Corte é um complemento natural da atividade

Uma regra básica, nunca deposite 100% de seus investimentos na produção de leite, prefira a diversificação,  50% em pecuária de corte e 50% no leite e assim você irá reduzir seus riscos pela metade, pois normalmente quando uma atividade está em baixa a outra está em alta. E não me venha falar que você não tem terras, com o pastejo rotacionado, tema de um artigo deste blog, você multiplica a capacidade de suas terras por 10, até mesmo 15 vezes.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Produzir Leite é Bom Negócio? Capitulo 7 - Parte 1

Os Censos Agropecuários de 95 e 2005 revelaram que meio milhão de pequenos produtores de leite até 50 litros/dia abandonaram a atividade naquele período. Estes são o que chamamos de produtores de subsistência, com renda de no máximo 4 salários mínimos e que,  ou crescem ou mudam de negócio ou procuram empregos nas cidades, aproveitando a boa fase da economia.Por outro lado, os produtores de 50 a 200 litros/dia quase que duplicaram, passando de 190 mil para 250 mil e podemos deduzir que do um milhão e meio de produtores de até 50 litros/dia, existentes em 1995, apenas 60mil buscaram aumentar a produção introduzindo novas tecnologias. Os demais, mais exatamente meio milhão como dissemos, chutaram o pau da barraca e mudaram de negócio e então vão resistindo até quando não der mais.

Mas o dado mais curioso, é que metade dos produtores com produção acima de 200 lt/dia também saiu do ramo, restando apenas 14 mil produtores, que vamos chamar de grandes, e que respondem por  por 20% do leite produzido no país. A metade do leite brasileiro vêem das fazendas que produzem até 200 litros/dia. São basicamente fazendas familiares, que possibilitam uma renda de até 10 salários mínimos mensais e que permitem uma família no campo viver razoavelmente bem, pois o custo para se viver no campo é muito menor que nas cidades.

Mas a verdade é que a segunda geração destes produtores, ou seja, os filhos, possuem um desejo irresistível de se mudarem para as cidades aliado ao fato que a maioria destas propriedades são pequenas e quando  divididas entre os filhos não permitem manter o mesmo padrão de renda que seus pais proporcionaram, a não ser nas raras famílias que conseguem trabalhar num sistema do tipo cooperativa.

O mais provável que vai acontecer é que uma pequena parte dos pequenos produtores até 50 litros irá migrar para a faixa intermediária e o restante irá desaparecer da atividade. Parte dos produtores médios até 200 litros continuará crescendo e um novo tipo de megaempreendedor irá surgir entra os grandes produtores, que farão investimentos vultuosos criando verdadeiras indústrias produtoras de leite, em nada lembrando uma fazenda tradicional, com modelos similares ao que podemos ver neste documetário de uma empresa de 500 mil litros/dia instalada no Vietnã.



O restante, que ainda usam o modelo tradicional e que não  possuem um aporte de capital necessário vão sucumbir perante as dificuldades crescentes de se encontrar mão de obra e pelos custos cada vez maiores da própria mão de obra e das commodities agrícolas num mundo cada vez mais globalizado. 


Estas mudanças acontecem no mundo todo, e há poucos dias li uma reportagem do New York Times que contava uma história de uma geração de produtores de leite nos EUA na qual, a primeira geração, os avós, criaram os filhos muito bem, com uma produçao diária de 800 lt/dia. Já a segunda geração, os pais, tiveram que produzir dois mil lt/dia pára criar bem seus filhos. A terceira geração, os netos, por sua vez mesmo produzindo quatro mil litros/dia não estão conseguindo a rentabilidade necessária para permancecer no ramo. As história são parecidas, mudando apenas as escalas de produção e alguns aspectos culturais.

Será Continuado.