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segunda-feira, 10 de abril de 2017

Um salto no escuro e a teoria do caos.

Sempre tive uma facilidade extrema de me adaptar ao ambiente. Sempre achando que o local que eu me encontrava no momento, era o melhor do mundo e mal me lembrando de onde eu vinha.

Mesmo quando fazia viagens relativamente curtas, 2 ou 3 meses, geralmente cursos no exterior, achava que estava em casa. Ok, nunca me enviaram para Síria ou Afeganistão embora suspeito que, muitos ardentemente desejassem isto pois, sempre fui um funcionário nada convencional, mas esta é outra história.

Sempre me pautei pela coerência. Assim que terminei o ensino médio, cheguei na Universidade Pública para fazer minha inscrição no vestibular e ali mesmo, escolhi minha carreira: perguntei ao moço que estava me atendendo qual era curso  que dava mais oportunidades de fazer dinheiro.

- Olha, Engenharia é uma boa escolha - respondeu-me o atendente olhando para o relógio impacientemente.
- Pois pode marcar aí, pois sinto aqui, minha vocação nascendo - respondi prontamente.

Terminei engenharia elétrica em 1983 e os primeiros computadores apareciam e me apaixonei. A crise do petróleo deflagrada em 1973 atingia o apogeu, no Brasil. Tudo por aqui parece chegar com um atraso de 10 anos.

Comecei trabalhando em computadores, pois empregos estavam escassos e comecei a duvidar do atendente mas um ano depois ingressava no mundo Telecom descobrindo um mundo fantástico e nesta área permaneci por 18 anos, dois deles nos EUA mas em 1996,  visitando uma fazenda de um concunhado, num dia frio de inverno (It´s a cold and blue day - Mobydick) fiquei minutos contemplando as pastagens banhadas pelo sol ainda forte dos trópicos. Percebi ali que não havia país mais rico que este. O sol irradiava energia o ano todo, que iria alimentar o mundo pois, os alimentos são reservatórios de energia solar convertida. Uma questão de tempo, seremos uma potência ainda.

Em 1997 adquiri uma fazenda ao lado e em 2004 mudei definitivamente para explorar meu novo empreendimento. Um salto no escuro, afinal nunca havia morado numa fazenda e sequer conhecia bem uma vaca. Minha filha Karen com 12 anos na época, me ensinou a diferenciar um bezerro macho de um fêmea.

Como era uma área pequena, dediquei-me a pecuária de leite, unica atividade que me diziam ser viável ali. Crescemos, fomos pioneiros na região na adoção de tecnologias mas os resultados nunca eram satisfatórios até que eu percebi, deveria encontrar uma atividade complementar. 

Comecei a pesquisar. Nosso país é o maior exportador de carne bovina do mundo mas apanhamos feio dos americanos que possuem metade do rebanho e produzem mais carne. Onde estaria o segredo.

We are going to Texas!

Não fui ao Texas, na verdade já havia ido anos atrás com minha família, cruzando 22 estados nos EUA, mas as memórias se acumularam em algum canto e, Eureca, lembrei que, o gado de corte americano é basicamente criado ali, em regiões Texanas onde nunca chove.

Continuei pesquisando e fui fazendo minhas planilhas, fundamentadas por estudos sobre a dieta de grão inteiro. Uma dieta fundamentada no fornecimento quase integral de alimentos concentrados, desafiando a principal característica dos bovinos, animais herbívoros, que se alimentam de volumoso - capim preferencialmente.

Planejamento detalhado, antes de começar o projeto propriamente, escrevi um artigo no meu blog: 

Bezerros Holandeses: Como produzir um bezerro de 12 arrobas com 12 meses.

Havia muita convicção que aquilo funcionaria mesmo sabendo que muitos por aqui tentaram e desistiram por diferentes razões. No máximo eu teria uns poucos leitores rindo de mim se desse errado. 

E funcionou maravilhosamente, com os bezerros holandeses chegando a engordar 2 Kg /dia, empatando com os rednecks. Com 12 meses vendemos o primeiro lote de holandeses, como baby beef para o frigorífico.

Eles pagaram preço de arroba de boi mas nunca tinham visto aqueles boizinhos. O lucro foi bom na casa de 60% a.a. Mas eu estava insatisfeito, queria resultados mais rápidos.

Modifiquei a dieta e vendemos o segundo lote com 10 meses. O lucro melhorou muito pois o consumo dos alimentos é função do peso do animal que a cada 15 dias deve ser monitorado por amostragem. A ferramenta que desenvolvi foi muito importante, entravava com peso do animal e ela me dava a dieta por animal  e a lucratividade que eles teriam ao longo do tempo até sua venda. Estava ficando tedioso, pois a ferramenta previa o futuro mas, ela não previa não conformidades, a teoria do caos.

Um dia morre um bezerro de acidose, uma diminuição drástica do PH ruminal. Meus funcionários ficam muito abatidos enquanto eu ficava repetindo: foi a melhor coisa que aconteceu, pois isto vai evitar uma tragédia de grandes proporções que aconteceria em breve. Um bezerro heroico. Salvou os demais. Fizemos o enterro do pobre bezerro com salva de tiros e bandeira Nacional.

Corri para o Google e horas depois fui parar numa tese de mestrado de Carolina Guerra Martins de 2013. Ela percebeu que a adição de bagaço de cana na proporção de 9% elevou o PH ruminal de 5,7 para 6,10. Não temos bagaço de cana na Fazenda e optei por cana moída que utilizamos no trato de novilhas, bezerros e vacas secas etc. Mas cana não é um substituto ideal do bagaço pois contem muito carboidrato.  


Maravilha, resolveu o problema e nos permitiu sair do fio da navalha, pois quando você trabalha nos limite, o risco de mortes é grande, daí fornecíamos a dieta em porções, 3 vezes ao dia para evitar uma redução excessiva do PH. Com a introdução da cana triturada passamos a trabalhar com dieta 2 vezes ao dia.

Mas dias depois vejo que alguns bezerros não estavam muito bem, apresentando sinais de timpanismo. Pensei, será a cana? Mas em quantidades tão pequenas, é impossível. Perguntei aos funcionários e eles disseram que haviam aumentado 600 gr para 3 kg pois isto teoricamente, seria ainda melhor.

Não era, embora as intenções fossem as melhores. Quando você trabalha no limite, uma pequena modificação assim, elevou os nível de carboidrato, que seria fatal se eu casualmente não tivesse ficado cismado com um bezerro especificamente. Gato escaldado tem medo até de neve.

Bem, neste estágio, considerei que havíamos atingido o ponto ideal e arriscar mais seria inútil e perigoso.

Comecei a testar então o bezerro meio sangue. Metade holandês e metade Gir, chamado de girolando e bem aceito pelos criadores de bezerros a pasto que fogem do bezerros holandeses como o diabo da cruz pois, são mais frágeis, menos resistentes ao calor e por esta razão têm menor conversão alimentar.

Desmamados aos 2 meses, os bezerros 1/2 sangue, foram confinados na dieta de grão inteiro e aos 4,5 meses vendidos com 180 Kg cada a um preço de R$ 1.200,00 por cabeça. Um lucro de R$ 800,00  e um custo final de R$ 422,00 por cabeça. Lucro líquido real de 267%. Um negócio com lucratividade de Pablo Escobar e totalmente lícito.

Caos Theory

Planejamento para o ano seguinte feito, já visualizando os milhões, a teoria do Caos entra em ação novamente: uma presidente cabeça de vento joga o dólar de 2 para 4 reais o que eleva o custo da saca de milho de 22 reais para quase 50 reais, provocando suspensão temporária do projeto em 2016, com retorno previsto para 2017 caso outro maluco governamental não entre em ação novamente. Anyway, os lucros serão menores, pois os preços dos bezerros caíram com o naufrágio da economia, embora ainda sejam espetaculares. 

Bom para o Brasil

O aproveitamento dos bezerros holandeses, hoje descartados, poderiam adicionar ao mercado de carne nacional, 100 milhões de arrobas /ano, a partir do uso desta técnica, como é feito na America e Europa.

O confinamento de bovinos tomou lugar da pecuária extensiva nos EUA lá pelos idos de 1850. No Brasil, esta novidade ainda não é uma realidade pelo custo tradicionalmente barato das terras no passado e pelas incontáveis heranças de pequenas capitanias hereditárias espalhadas pelo Brasil. Mas  as terras estão cada vez mais valiosas, devido a pressão da agricultura. 

Com isto, as multinacionais e grandes  produtores, invadiram a Amazônia a partir da década de 70 para estabelecer novas áreas  para a produção de carne seguidas depois pelos agricultores. 

A produção dos novilhos precoces utilizando os bezerros machos da pecuária de leite reduzirá drasticamente esta pressão, salvando a Amazônia.


domingo, 15 de janeiro de 2017

Qual o melhor Investimento? Terras ou Imóveis Residenciais

Resposta Simples para uma Simples Questão


Esta é uma discussão que se arrasta, mas cuja resposta é bastante simples: Terras. Não existe investimento mais seguro e com a mesma rentabilidade no médio e longo prazo e com a possibilidade muito provável, de se tornar inimaginável assim que o Brasil permitir que estrangeiros adquiram terras aqui, inflacionando em dólar os preços do hectare. Nem o MST quer ficar de fora.


Não Chame o SAMU, ainda

Antes que o leitor chame o SAMU para capturar um blogueiro e produtor rural ensandecido, calm down, leia primeiro o que vou escrever.

Porque a maioria prefere a Poupança?

Mesmo sabendo que o retorno da poupança é pequeno, a maioria dos pequenos investidores a prefere, por ser garantida pelo Tesouro Nacional o que, em se tratando de Brasil, não significa muita coisa, pois Sarney, o presidente dos Bigodes e que caçava Boi Gordo, deu o calote internacional na divida externa, o que levou o Brasil a um atraso de pelo menos 20 anos no seu desenvolvimento.  Collor, o presidente caçador de marajás, confiscou a poupança por uns tempos, acabando com a pouca credibilidade que ainda restava a república. Mas esta é outra história. 

O que importa é que a maioria, prefere a segurança dos títulos do tesouro, principalmente do governo dos EUA. E se há dólares ainda entrando no Brasil é porque os juros lá são menores que 1% mas, tudo muda. Trump está adentrando o saloon.

Rentabilidade do Hectare de Terra nos últimos 20 anos


Não sou o IBGE para ficar aqui divulgando números, mas se vocês analisarem a valorização das terras no Brasil nos últimos 20 anos, ela foi em torno de 10% a.a. acima da inflação e 6% a.a. acima da poupança, o que para investidores conservadores, não é mal. E quando tudo vai mal neste país, pelo menos o agronegócio continua segurando as pontas e as terras mantem uma relativa estabilidade de preços.

Rentabilidade dos Imóveis Residenciais últimos 20 anos

Como vocês podem ver no gráfico abaixo, a valorização dos preços dos imóveis sofreram ciclos de alta e baixas, com uma valorização de 200% de 2004 a 2014 impulsionada pelo crédito fácil e demais benesses sem lastro do governo Petista,  que se foi bom no curto prazo, destruiu a economia no médio prazo. E hoje começa-se pagar a conta com novo período de queda de preços do imóveis, ainda tímida.
E uma noticia mais chocante, nos últimos 36 anos a valorização real  dos imóveis foi de apenas 1,23% a.a. perdendo da inflação.

Fonte:http://rexperts.com.br/valorizacao-dos-imoveis-brasil-fipe-zap/


Vaca velha não tem valor mas Terra não envelhece

Um imóvel residencial tem um problema no longo prazo:  ele envelhece e não há reforma capaz disfarçar a idade da construção. É como cirurgia plástica, estica, disfarça e dizem que melhora o rosto mas no resto ficam as marcas inconfundíveis dos anos. No final você acaba ficando apenas com o terreno e um monte de entulhos que você precisa pagar uma baba para demolir e transportar.

Terra não. O inquilino pode abusar, destruir cercas, pastos, tudo, mas a terra ele não consegue, por mais que tente. A natureza é sempre  mais forte e os campos logo renascem, isto é, claro, se você não tiver comprado uma terra muito ruim. Cascalhinho ou areia.  Neste caso, terá que reformá-la totalmente, o que também não é muito caro.

Você Ficará Rico Comprando Terras


Não seja tolo, se você compra pouca terra é porque você é um pobre remediado e medroso de fazer investimentos arriscados.

Comprar terras pequenas é uma forma de proteção ao seu dinheiro, fruto do seu trabalho. E com a vantagem que o MST não invade propriedades pequenas.

Se você compra muita terra,  então você já é rico e não vai perder tempo lendo este blog. Uma fazenda grande, bem administrada pode gerar riquezas na agricultura e também fazê-lo pobre da noite para o dia. 

Na pecuária de corte, você vai conseguir bons rendimentos, claro se bem administrado por você e dificilmente você ficará mais pobre.

Pecuária de Leite é coisa para doido varrido ou pequenos produtores mas um grande negócio para empreendimentos familiares, nos quais a família toca seu próprio negócio. Claro, pode ser um negócio interessante para produtores industriais, que produzem em altíssima escala, mas existem muitos riscos num mercado cujos preços segue um modelo tipo samba do crioulo doido.

Um sítio pequeno pode ser rentável

É possível, desde que se opte por uma diversificação na produção. Ex.: borracha, aves, leite orgânico, suínos e uma variedade muito grande de possibilidades de negócios, que exigem trabalho e capital para investir. Escolha sempre pelo investimento menor possível. Rusticidade mas segura e bem feita. Siga o modelo da Nova Zelândia que opta sempre pelo simples e funcional. Beleza não gera renda a não ser é claro que você pense em fazer um empreendimento de eco-turismo.



E a sede da fazenda

Se você vai morar na fazenda, pelo menos por alguns anos, faça uma estrutura confortável e bonita. Não vai gerar um único níquel e ainda vai te dar custos mas você viverá confortavelmente e desfrutando dos prazeres do campo. Um investimento assim, numa terra pequena, valoriza seu imóvel, numa terra grande não muda nada, pois o valor da infra-estrutura se dilui nas centenas de hectares. E os custos se depreciam ao longo dos anos e no final você viveu agradavelmente,  sempre da melhor forma possível, sem os excessos de novo rico. 

Guerra ou cataclismos

Nas grandes crises mundiais, grandes acidentes naturais, a terra é a única coisa que permanece intacta. Todos os outros imóveis ou valores podem literalmente desaparecerem e você ficar pobre, pobre de marré deci.


Onde comprar minhas terras

Em um lugar que tenha água com abundância o ano todo, um regime de chuvas acima de 1000 mm. Se você é pecuarista e gosta de tecnologia e quer confinar seu gado de corte, opte pelo Mato Grosso, pois ali há alimentos baratos e o custo da arroba do boi é similar aos demais estados. 

Mas o lugar seguro no longo prazo, é nos EUA ou Canadá ou algum estado do Paraná para baixo, embora o preço das terras seja alto nestes lugares.

A previsão da ONU é que, com aquecimento global e desmatamento da Amazônia,  o sudeste e centro-oeste enfrentarão temperaturas acima de 50 graus, impossibilitando a existência de qualquer forma de vida, com tornados assustadores de 600 km por hora. E EUA e Canadá,  nos seus estados mais  frios, vão ter o clima do Brasil central de hoje. Tudo são teorias mas, se você é do tipo assustado, é bom ir se prevenindo.

Uma riqueza inexplorada

Como mencionei em 3 artigos deste blog, o Brasil poderia simplesmente dobrar sua produção de carne, aproveitando os bezerros hoje descartados na pecuária de leite, utilizando-se a dieta de grãos inteiro. Isto está bem perto de acontecer pois, cada vez mais a agricultura avança sobre as terras planas e o corte ficará restrito as terras de relevo acidentado e ao confinamento. Mas esta é outra história, já repetida neste blog várias vezes.




sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O Melhor Negócio da Pecuária Leiteira é o Bezerro Macho


Obs.: Projeto Viável para preço do milho igual ou abaixo de R$ 30,00

Caminhando contra o vento

Antes que o amigo leitor imagine que eu perdi a razão definitivamente, deixe-me primeiro explicar as razões desta virada de mesa.

Minha vida durante 18 anos foi na área Telecom, dois anos nos EUA e de repente abandono o ramo e vou empreender na atividade rural, para explorar as terras que eu havia comprado há uns 5 anos, lidando com uma atividade que  embora seja relativamente segura, é sabidamente de baixa lucratividade, ou pelo menos eu acreditava nisto.

Por um acaso do destino, em 2001 comecei a me aventurar na atividade leiteira e a partir de 2004 me dediquei exclusivamente a pecuária, mais focado na produção de leite. 

Para quem mal sabia o que era uma vaca, foi uma aventura e tanto. Aprendi muitos com vários profissionais competentes como o professor Nelson Ferreira Lucio, Marcelo Reis, Eltony Leão, Rodrigo Zumpano Rodrigues e outros e, se não existisse a internet, especialmente o google,  teria desistido em poucos anos. Com uma infinidade de informações fui aprendendo e desenvolvendo as planilhas necessárias ao planejamento, controle do rebanho e ao financeiro. Mas o que me entristecia era a rentabilidade, margens pequenas, o que me apontava uma única alternativa: aumentar muito a produção, o que exigia altos investimentos, ou um tempo muito longo para atingir as metas e a longo prazo, como diria Lord Keynes, a longo prazo estaremos todos mortos.

Diversificar para Sobreviver às Crises Sazonais

Após alguns anos decidi diversificar e trabalhar também com a pecuária de corte, por uma razão simples, quando o leite está em baixa, os preços da carne geralmente estão em alta e vice-versa. Uma dependência exclusiva numa atividade só, seria altamente perigosa. 

Mas, havia um impasse, como adquiri as terras com o meu trabalho em Telecom, evidentemente a área é pequena se comparada aos latifúndios dos herdeiros de terras no Brasil. Algumas fazendas são maiores que muitos países. 

Assim, eu teria que encontrar um modelo de negócios que funcionasse sem grandes investimentos e com alta produtividade e giro rápido, para manter o padrão de vida relativamente bom.

Produzindo o Vitelo ou baby beef para um mercado que desconhece o que é isto

E o que eu tinha em mãos para produzir carne sem altos investimentos, era o bezerro da raça holandesa, meu gado preferido para a  pecuária de leite. Mas o problema é que o bezerro macho de gado  com grau de sangue acima de 60% Holandês (que chamaremos de +holandês neste artigo) é considerado uma praga e desprezado pelos produtores. Em geral são doados ou mesmo mortos ao nascer pelo produtor, atitudes que me horrorizavam. Um típico produtor de leite ao saber que sua vaca pariu um bezerro macho holandês,  chora copiosamente, batendo com a cabeça na primeira arvore que encontra e praguejando contra a maré de azar.

Mas eu achava que naquele quinhão havia possibilidades, afinal produzimos 10 milhões de bezerros de leite por ano. Não sei qual a porcentagem, mas uma grande parte de bezerros "indesejados", os +holandeses.

E comecei testar alternativas até que cheguei a dieta de grão de milho inteiro, com reduzida quantidade de volumoso (10%). Isto nos permitiu lucros muito bons por cabeça mas eu queria mais.

Comecei então a testar bezerros mais voltados ao Gir, os quais chamaremos neste artigo de -holandês, que é um tipo de gado Zebuino, originário da Índia e que, cruzado com o holandês, produz fêmeas com alta capacidade leiteira e machos com boa eficiência na produção de carne. Embora seja menos dócil e tenha uma persistência de lactação menor que o holandês. Em compensação, são perfeitamente adaptados ao clima e parasitas tropicais.

No comparativo entre bezerro macho +holandês e o 
-holandês, o resultado foi:

Na estação da seca, o bezerro +holandês, tem um ganho de peso diário superior ao bezerro -holandês mas, na estação da chuva, o bezerro -holandês supera e muito o +holandês. 
Chegamos a atingir GPD ( ganho de peso dia) de até 2 Kg com o bezerro +holandês,  e 1,5 Kg com o Bezerro  -holandês.

Parece que a escolha certa seria optar pelo bezerro +holandês mas, como diria o Joelmir Beting, na prática, a teoria é outra, pelos seguintes motivos:

1 - Os bezerros +holandeses são mais frágeis, menos resistentes ao calor e por esta razão têm menor conversão alimentar, haja visto que gastam uma boa parte da energia que extraem de sua alimentação no equilíbrio da temperatura corporal. No inverno vão muito bem e têm GDP maior que os - holandeses mas no verão, os - holandeses largam na frente. 

2 - Os criadores de bezerro a pasto fogem do holandês, como o diabo da cruz, pelas razões acima e pela baixa resistência aos parasitas como o carrapato e as doenças que esta praga transmite;

3 - Os confinadores até que compram os bezerros +holandeses, pois estes se adaptam bem ao confinamento, porém pagam preços bastante inferiores ao que pagam no bezerro -holandês, aproveitando-se da oferta superior a demanda;

4 - Os frigoríficos desconhecem a carne de bezerro precoce ou baby beef, o que só demonstra o atraso cultural e tecnológico da bovinocultura em relação a suinocultura e avicultura;

Lucro de 267% em bezerros de 4,5 meses

Há uns 5 meses iniciamos os testes com bezerros com grau de sangue mais acentuado no Gir, no mínimo 50%,   os aqui chamados de  -holandeses.

Desmamados aos 2 meses, foram confinados na dieta de grão inteiro e aos 4,5 meses vendidos com 180 Kg cada a um preço de R$ 1.200,00 por cabeça. Um lucro de R$ 800,00  e um custo final de R$ 422,00 por cabeça. Lucro líquido real de 267%.

Os holandeses produzidos  também vendidos aos 4,5 meses, tiveram o mesmo custo de R$ 422,00, porem o preço de venda se limitou a R$ 700,00 por cabeça. Um lucro líquido de 166%. Muito bom mas, muitos atrasaram na desmama por uma série de doenças, que os bezerros -holandeses não adquiriram, por serem adaptados ao habitat. Assim na média geral o lucro dos +holandeses se limitou a 42% em 4,5 meses.

Nem tudo é maravilha

Se o negócio parece tão lucrativo quanto os do finado Pablo Escobar qual o problema então. 

Escala meus caros. Uma fazenda leiteira típica e relativamente de alta produção no Brasil, têm em média 300 vacas, e podemos esperar no máximo 120 bezerros macho ano. A maioria das fazendas têm muito menos vacas. O ideal seria termos 1.000 bezerros por ano mas isto implica num custo anual só com os bezerros de quase meio milhão e perigos constantes com a instabilidade da economia,  a alta do dólar e consequentemente dos insumos. Se o dólar cai, podemos esperar também uma queda no preço da carne e consequentemente do bezerro macho.

Então resolvi ir aos poucos, inseminando minhas vacas leiteiras com sêmem de touros Gir ou Girolando e principalmente, produzir leite ao menor custo possível gerando o maior numero de bezerros macho por ano. Além disto o conceito de rebanho estável foi por água abaixo, e o que queremos agora é manter todas as fêmeas para que também produzam leite e principalmente bezerros machos, mas isto tem custos, necessita de altos Capex e sangue frio.

Que sêmem sexado que nada

A pecuária leiteira no Brasil chegou a tamanha distorção, que aqui se emprega muito o sêmem sexado, na qual o produtor de leite produz apenas fêmeas menosprezando o altamente lucrativo negócio da pecuária de corte ao aproveitar os bezerros machos.

Não quero nem ouvir falar em sêmem sexado a não ser claro, para replicar com a técnica FIV, herdeiras de uma vaca com características excepcionais. Mas esta é outra história.

Mais é Mais

Antigamente (há alguns meses) meu foco era: obter a maior produtividade por vaca com um rebanho estável, ou seja produzir muito leite com um rebanho mínimo.

Mas, a descoberta deste negócio, mudou meus planos. O foco agora é produzir leite no modelo da Nova Zelândia, uma média de litros de leite por vaca razoável e com o menor custo mas com a diferença que sempre buscaremos o maior rebanho possível para produzir a maior quantidade de bezerros. Utilizando sempre vacas produtivas, adaptadas ao clima, e com alta eficiência reprodutiva. E isto nos força a abandonar os sêmen de touros Holandeses, focando basicamente nos sêmen de touros zebuínos da raça Gir ou Grolando, nacionais. 










quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Uma Riqueza Inexplorada na Pecuária



Obs.: Projeto Viável para preço do milho igual ou abaixo de R$ 30,00

Pecuária de Leite Brasileira - Uma industria do século 19 em transformação profunda e dolorosa.

O Brasil é um país curioso. Nossa industria láctea é uma das mais primitivas do mundo com lactação média ao redor de 1.500 lts de leite por vaca. Os EUA têm uma lactação de de 10 mil lts por vaca e a Índia de 1.200 lts por vaca. Nossa pecuária de leite desenvolveu-se lideradas por produtores extrativistas utilizando técnicas do Brasil Império que produzem o chamado leite verde, coletado de vacas tatu com cobra, cruzamento de racas europeias com o gado Zebuino ou BOVNI (Boi de Origem Vadia Não Identificada), criadas, pode-se dizer, exclusivamente a pasto. 

Ondas de modernidade criaram em Pindorama um arquipélago que eu chamo de Nova Zelíndia, uma mistura de Nova Zelândia com a Índia, formado por ilhas de produtores modernos empregando os mais modernos conceitos na produção leiteira em meio a um cenário desolador, cercados pela  pobreza cultural, tecnológica, de recursos e apoio de um governo jurássico e corrupto   que impede que os produtores tradicionais ou gigolôs de vaca ousem a mudar os seus conceitos.

Isto fez florescer uma imensa cadeia de pequenas cooperativas de leite que funcionam como empresas publicas, elegendo para presidente,  produtores de leite com a visão do século 19  para gerir um negócio de século 21.

Os presidentes, na verdade, se locupletam nos cargos,  com razoáveis salários e vantagens obscuras transformando as cooperativas em cabides de empregos para uma quantidade enorme de pessoas sem capacitação, pois se forem capacitados, podem derrubar o presidente. Então, tirando as devidas exceções, estas cooperativas não tem o menor futuro e serão engolidas pelas grandes multinacionais, que obviamente só se interessam pelos produtores de alta produção. Na verdade 500 mil produtores já abandonaram o negócio e muitas famílias foram para as cidades, para uma vida sofrida, pois sem qualificação não têm a menor chance de concorrer no altamente competitivo mercado de trabalho.

A única maneira seria as cooperativas se unirem formando uma grande cooperativa comandada por executivos com vasta experiencia no setor. Mas isto nem pensar, os presidentes usam até colar de alho e água benta  para se protegerem desta eventual ameaça modernista aos seus cobiçados carguinhos. E assim, one by one, os pequenos laticínios que se fartaram do dinheiro fácil na época do Lula Marolinha vão quebrando e levando consigo uma enorme quantidade de pequenos produtores a uma situação crítica pois, sem as pequenas cooperativas, as grandes multinacionais ditarão preço que quiserem para o leite e pior, coletarão o leite que lhes forem conveniente, mudando totalmente o perfil do produtor de leite, que terá que se profissionalizar. Mas isto não é suficiente. Não basta ter o domínio de novas tecnologias é preciso ter capital de giro e para investir. É preciso ser grande e produzir muito. 
Nos EUA, produtores com menos de 5 mil litros/dia  já não conseguem sobreviver.

Alem da produção é preciso estar posicionado geograficamente numa rota interessante para os laticínios. Quanto mais vizinhos grandes produtores melhor  o pequeno produtor tiver melhor para ele pois as industrias coletarão seu leitinho por uns tempos simplesmente por não adicionar custos de frete.

Com este novo cenário, 1 milhão pequenos produtores abandonarão a atividade num futuro próximo. 

O melhor negócio da Pecuária de Leite 

Hoje no Brasil, com neste cenário de terra arrasada que se encontra o país e que irá produzir mudanças dolorosas, é preciso encontrar meios de subsistir na pecuária de leite durante a fase de convergência para o novo modelo, após o fim da última pequena cooperativa de leite. Lembrando que, este fim pode ser uma fusão de várias pequenas cooperativas numa empresa moderna, grande e competitiva. Mas, dado os interesses pessoais e oligárquicos, como mencionei, é de se duvidar que isto aconteça. Mas a esperança é a ultima que morre e esta é outra história.

Hoje o Brasil produz cerca de 10 milhões de bezerros machos na pecuária de leite. Sua grande maioria é simplesmente eliminada. Isto mesmo senhores, assassinados no momento do nascimento para se evitar os custos na sua criação para um retorno inexistente no modelo tradicional de criação a pasto ou mesmo pelo modelo de altíssimo custo  usado no confinamento de  Pindorama (Pindorama foi o primeiro nome dado ao Brasil pelo índios que aqui habitavam. O nome mudou, o país mudou um pouco).

Os bezerros machos da pecuária leiteira, como explicado no artigo Produzindo Bezerros Precoces para Corte - Resultados poderiam adicionar ao mercado de carne nacional, 100 milhões de arrobas a cada 10 meses, a partir do uso desta técnica pelos produtores de leite. Na verdade, quem vai criá-los serão os produtores de corte, que vão adquiri-los a um preço justo dos produtores de leite, gerando-se assim, uma nova fonte de renda para o produtor de leite. 

Mas, até que os pecuaristas de corte, que em grande parte ainda também trabalham com conceitos do Brasil Império adotem esta nova realidade, o produtores de leite terão que fomentar este negócio, eles próprios engordando os bezerros de leite. 

Muitos se tornarão pecuaristas de corte e outros se especializarão na criação até a desmama, quando irão revenderem os bezerros aos confinadores. Mas isto levará um bom tempo.

Ecologistas: a produção do bezerro precoce salvará a Amazônia do desmatamento

O confinamento de bovinos tomou lugar da pecuária extensiva nos EUA lá pelos idos de 1850. No Brasil, esta novidade ainda não é uma realidade pelo custo tradicionalmente barato das terras no passado e pelas incontáveis heranças de pequenas capitanias hereditárias espalhadas pelo Brasil. Mas isto está no fim e as terras estão cada vez mais valiosas, devido a pressão da agricultura. 

Com isto, as multinacionais e grandes  produtores, invadiram a Amazônia a partir da década de 70 para estabelecer novas áreas  para a produção de carne seguidas depois pelos agricultores. 

A produção dos novilhos precoces utilizando os bezerros machos da pecuária de leite reduzirá drasticamente esta pressão e produzirá menor emissão de gás metano. Os EUA com a metade do rebanho de Pindorama, produzem mais carne  porque eles aproveitam os bezerros de leite, tem mais produtividade devido aos incentivos governamentais e um mercado consumidor poderoso e alta competitividade exportadora devido a qualidade da carne americana.

Nosso gadinho a pasto é musculoso e quando criado de maneira tradicional do Brasil Império, vai para o abate dos 3 aos 5 anos, gerando uma carne dura, de pouco valor no mercado internacional. Claro, temos produtores modernos que produzem carne de alta qualidade mas a norma é o gadinho nelore, musculoso como Schwarzenegger, e duro de matar como Bruce Willis.








domingo, 6 de setembro de 2015

Produzindo Bezerros Precoces para Corte - Resultados



Obs.: Projeto Viável para preço do milho igual ou abaixo de R$ 30,00

Em novembro de 2014 publiquei um artigo cujo título era 

Bezerros Holandeses: Como produzir um bezerro de 12 arrobas com 12 meses. Bem, passados 9 meses chegamos a interessantes conclusões que vou tentar descrever sucintamente para não cansar o já cansado leitor de tanta bobagem miraculosa que se escreve por aí.


O artigo de 2014 foi escrito logo no inicio do projeto piloto de engorda  utilizando a Dieta de Grão Inteiro, que consiste em alimentar um ruminante apenas com milho inteiro e um núcleo especial até o abate, que originalmente aconteceria aos 12 meses. 

Primeira Geração da Dieta Veredas: E realmente  o primeiro abate se deu com animais de 10 meses de vida  com aproximadamente 10@s e ganho de peso diário médio de apenas 1 Kg / dia.  Em janeiro finalizei o sistema simulador que indica o Ganho de Peso ideal Diário (GPD)  e a idade para o abate com lucro ótimo. A planilha também gerou a tabela de consumo /dia de milho e núcleo referente  a dieta necessária para se conseguir um determinado GPD. Percebi que, a chave do sucesso estava no GPD máximo. Um pequeno GPD significava que teríamos que manter os animais 10 meses ou mais no cocho reduzindo drasticamente o lucro líquido. Nesta primeira geração da dieta os animais comiam 2% do peso vivo em milho grão e 30% de núcleo, tomando-se como referência o consumo dia de milho.
A primeira venda dos animais gerou um lucro líquido de 28% ou 4% a.m.


Segunda Geração da Dieta Veredas: Insatisfeito com o resultado, modifiquei a dieta aumentando em 10% o  percentual de milho  sobre o peso vivo na dieta tomando os devidos cuidados para evitar que os animais morressem de distúrbios metabólicos, tendo em vista que dietas com alto teor de concentrados levam a uma diminuição do PH ruminal que podem levar os animais a quadros de acidose ruminal e sanguínea que podemos identificar facilmente pela diarreia e presença de muco nas fezes bem como desidratação, falta de coordenação motora resultando na  morte do animal. Outra doença característica destas dietas é o timpanismo ou empanzinamento que é a impossibilidade do animal de eliminar o excesso de gases no rumem que podem levar a uma morte súbita por parada respiratória. Podemos identificá-
lo principalmente pela distensão do flanco esquerdo, um abaulamento em cima do rumem do animal. Existem uma série de outros distúrbios mas os mais graves são estes dois por levarem o animal a uma morte rápida e, às vezes, muitos animais simultaneamente. Felizmente nestas duas etapas não observamos nada, absolutamente nada de anormal com a saúde dos animais,  o que nos deu confiança para prosseguir incrementando a dieta cada vez mais. Os animais foram vendidos com 8 meses de vida com peso próximo de 10 @s e GDP de 1,2 KG /dia. Lucro líquido de 30%.


Terceira Geração da Dieta Veredas: Mas não estava satisfatório ainda e resolvi aumentar ainda mais a  quantidade de concentrado por animal por dia. E então um belo dia, um animal, um tourinho excepcional, morreu subitamente por empanzinamento. Meus funcionários ficaram desconcertados, mas na hora eu lhes disse: esta é a melhor coisa que poderia ter acontecido pois, nesta vida,  só aprendemos com o erro. Estava festivo demais para para aprendermos algo. Fui direto ao Google pesquisar como aumentar o PH ruminal dos bovinos confinados na dieta de grão inteiro. E lá estava a resposta, numa tese de mestrado de Carolina Guerra Martins de 2013. Ela percebeu que a adição de bagaço de cana na proporção de 9% elevou o PH ruminal de 5,7 para 6,10. Não temos bagaço de cana na Fazenda e optei por cana moída que utilizamos no trato de novilhas, bezerros e vacas secas etc. Mas cana não é um substituto ideal do bagaço pois contem muito carboidrato. Fiz uma nova tabela da dieta e passei aos funcionários mas, como eles perceberam que a cana funcionava decidiram por conta própria, pensando em garantir que o timpanismo não ocorresse novamente, aumentar a quantidade de cana 5 vezes mais que o indicado na tabela que lhes dei. Logo percebi os indícios de acidose ruminal pela diarreia intensa. Corrigimos e passamos a seguir a tabelinha e os sustos cessaram. A Dieta de Grão Inteiro é uma ciência exata e não aceita amadorismos. Muito tentam e perdem animais. É preciso estudar e compreender seus fundamentos e principalmente, respeitar as quantidades e pesar os animais mensalmente. Uma conversa telefônica com o Fernando, Zootecnista da Comigo, fornecedora do excelente núcleo que eu utilizo, me permitiu identificar o que estava acontecendo. Uma ajuda valiosa. Desta vez conseguimos e em alguns animais media de GPD de até 2 Kg, mas a média ainda está em torno de 1,5 KG, mas a previsão é que irão para o abate com apenas 6,5 meses de vida. Mas não está bom ainda. Continuamos a buscar o GPD de 2 kd/dia por animal.


Voltarei com mais detalhes se o leitor se interessar pelo assunto. Ele é amplo e envolve muita tecnologia para se obter o desempenho máximo e requer aquisições de milho no momento certo e  abaixo de R$ 25,00 a saca para um preço  da arroba do boi na faixa de R$ 120,00. Mas o simulador é completo e permite que tenhamos uma visão do futuro. 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Produzindo Leite: Uma Atividade Cada Vez Mais Profissional

No Brasil temos basicamente 3 tipos de Produtores de Leite:


1 - Produtores Familiares: ( até 1.000 litros de leite / dia) são famílias proprietárias de um pedaço de terra que sobrevivem quase  que exclusivamente do leite, na qual todas atividades são executadas pelos membros da família. Digo quase que exclusivamente, pois como dizia  Pero Vaz de Caminha, nesta terra em se plantando tudo dá, logo as famílias ainda obtém uma rendinha extra com diversas outras atividades não fins mas que ajudam no orçamento doméstico. Um grande negócio, mas uma atividade dura e que requer trabalho árduo e incansável. Não é para todos. Os mais aptos estão cada vez mais se sofisticando e crescendo.  Os demais vão se extinguindo, vendendo as propriedades e mudando para as cidades, atendendo ao irresistível desejo de uma vida ociosa e divertida. Acabam por engrossar o cordão do Bolsa Família, pois o mercado exige especialização que eles não possuem.

2 - Produtores Amarra Cachorro: ( de 1.001 a 5.000 litros de leite /dia). São os médios produtores, como  este humilde escriba,  que se esforçam para  crescer  num mundo de incertezas e mão de obra cada vez mais difícil, pois ninguém quer morar no campo, a não ser que seja proprietário e tenha veículos e recursos para ir a a cidade quando as esposas explodem e falam que não aquentam mais aquela solidão bucólica. Elas querem é o buzinaço, o ronco dos motores, a poluição, tropeçar nas  pessoas nas ruas, nos shopping centers, comer comidas pouco saudáveis e às vezes contaminadas em restaurantes da moda, a dengue, e fuga alucinada de bandidos perigosos e o sibilar das bala perdidas. Eta mundão bom demais. 
Alguns produtores, na verdade  a maioria, moram na cidade, curtindo os prazeres da vida urbana, os bares, o álcool, a cirrose e as conversas fiadas jogada fora em longos papos improdutivos, afinal o ser humano é um ser social , como as formigas e cupins.
Estes produtores tentam produzir cada vez mais, pois o lucro por litro de leite, é na casa de centavos e portanto o que importa é o volume mensal. E cada vez que aumentam a produção, mais complexa se torna a atividade, dependente de mão de obra instável e saturam o mercado de leite, fazendo despencar o preço do litro, pois a lei de mercado é cruel e não perdoa.  Para baixar os custos, tentam automatizar tudo ao máximo, os mais iluminados e corajosos já começam a utilizar robôs nas ordenhas, substituindo o velha mão de obra humana.
Utilizam técnicas como FIV que permitem uma padronização do gado leiteiro atingindo médias muito altas. Vacas de 25 a 30 litros são vendidas para produtores familiares ou enviadas para os frigoríficos. Antigamente uma vaca considerada boa de leite, produzia 10, 15 litros de leite, hoje uma vaca boa produz na faixa de 50 a 60 litros, tendo as exceções que chegam aos 100 litros. Mas ai a complexidade é enorme. No início, se fazia uma uma ordenha diária e para se atingir médias cada vez mais altas, faz-se 3 a 4 ordenhas diárias. É quando a maioria dos produtores amarra cachorro, jogam a toalha e fazem a liquidação do plantel, pois já estão a beira de um ataque de nervos. Depois de vendido todo o gado, ordenha, equipamentos, tratores e implementos, falam para todo mundo que nunca foram tão felizes, finalmente livres da escravidão do leite. Esta felicidade dura até acabar o dinheirinho arrecadado quando passam por crises do tipo, eu era feliz e não sabia, mas esta é outra história.
Os mais aptos passam para a segunda faixa de produtores.

3 - Produtores Profissionais: ( acima de 5.000 litros /dia). Aqui o negócio é encarado como um indústria. Primeiro faz-se o plano de negócio do empreendimento. O tal business plan contém o planejamento da industria num período de 5 a 10 anos. Capital necessário, despesas, mão de obra, produção e quantidade e tipos de animais necessários  e a média de litros por vaca  de acordo com o sistema de alimentação a ser utilizado. Pastagens irrigadas em pivôs centrais, confinamento total  ou semi-confinamento. As terras são adquiridas sempre próximas as cidades  ou mesmo doadas pelas prefeituras que têm todo o interesse em que uma nova industria se instale na cidade gerando empregos e impostos. O primeiro erro básico é montar a empresa longe da cidade. Os funcionários devem morar na cidade e com a opção de transporte gratuito até a industria de leite.  Os números são na faixa de milhões de dólares, e muitas vezes a empresa é uma sociedade formada por um grupo  de empresários ou mesmo poderia ser uma startup, que capta dinheiro nas bolsas para para todo o empreendimento. Neste caso normalmente após uns 5 anos consumindo o dinheiro alocado pelos investidores crédulos e ávidos por lucro, a empresa abre falência e os donos partem, enriquecidos com contas em paraísos fiscais e  partem para uma nova startup, num negócio totalmente diferente, para se dar dar bem mais uns 5 anos as custas dos tais investidores, ávidos pelo lucro fácil.




quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Bezerros Holandeses: Como produzir um bezerro de 12 arrobas com 12 meses.



Obs.: Projeto Viável para preço do milho igual ou abaixo de R$ 30,00 

A pecuária leiteira no Brasil sempre se caracterizou por desprezar os bezerros machos. O produtor sempre cai em prantos quando uma vaca pare um macho holandês, e manda rezar novena na certeza que aquilo foi olho gordo.  O mais cruéis normalmente matam o pobre animalzinho, que só deu azar de nascer com o sexo errado num país errado e povoado com produtores rurais perdidos no tempo e espaço abandonados pelos governos e sem conhecimentos. Alguns produtores, mais humanos,  doam o infeliz holandesinho para qualquer um, lavando as mãos, e na realidade só estão terceirizando a morte do bezerro. Outros tentam criá-lo da melhor maneira possível para ganhar um dinheirinho mas isto é uma tarefa quase impossível, pois animais europeus não se dão muito bem em países tropicais. Sofrem com o calor, parasitas selvagens e com maus cuidados com sua sanidade. Geralmente os mais puros morrem como moscas,   os 1/2 sangue até  se conseguem sobreviver no ambiente hostil.  Mas quem produz animais 1/2 sangue não é propriamente um produtor de leite:  ele é alguém que não sabe exatamente o que quer, quer produzir leite mas não consegue criar os animais com a alimentação adequada, seja por falta de recursos, medo, ou o mais comum, a preguiça, o irresistível desejo de um negócio simples, sem sofisticações, a herança cultural transmitida pelo seus antepassados. Tudo que eles desejam, é o modelo tradicional, um banquinho, um balde, umas vaquinhas neloradas ou tatu com cobra, como são conhecidas, que não produzem nem  leite nem carne, mas sobrevivem comendo ervas daninhas e um pouco de sal boiadeiro com ureia na seca, e na chuva, que beleza, produzem um balde cheio, com espuma, comendo capim andropogon, grama boiadeiro e até mesmo um pouco de brachiara. O reprodutor normalmente é  um nelore, um cruzado sem raça definida ou até mesmo um Gir orelhudo. Mas tudo muda lentamente, e alguns pequenos produtores, já usam inseminação artificial e até mesmo IATF.
Uma vaca 1/2 sangue pode até dar muito leite, mas também muito coice e sustos. E precisa do bezerro para dar o leitinho, mas como isto não se usa mais, o produtor descobriu uma mágica eficaz, a injeção de ocitocina na veia, que faz o leite descer na hora e a vaca saltar e sumir no pasto na primeira tentativa. mas ela acaba se acostumando com a tortura física e acaba por dar leite em quantidade por uns 4 meses, quando normalmente emprenha. Mas a industria tem solução para quase tudo, para corrigir este período de lactação ridículo, o produtor lança mão do Boostin ou Lactotropin. E ai a coisa muda, as vaquinhas de corte dão leite por 9, 10 meses. Uma beleza. Com o nelorão produzem uns bezerros valiosos, cruzamento industrial. O tal girolando 1/2 sangue cruzado com o nelore, gera um bezerro  bom, um triclós que não é tão bom quanto um 1/2 sangue Nelorando ou uma cruza nelore e Angus, mas dá pro gasto. O coitado é muito maltratado, pois em geral os produtores retiram todo o leite da vaca e deixam os coitados algumas horas com as vacas para mamarem um pouquinho. Um bezerro assim leva um uns 3 a 5 anos para ir para o abate, o que para o bezerro é muito bom, afinal ninguém quer morrer depressa. Já  os bezerros criados em bezerreiros crescem muito bem e são abatidos na metade do tempo.

O 1/2 sangue pode ser usado com o tal gado verde, alegria dos ecologistas, que come capim no verão e na seca se vira com a macega seca rica em celulose, alimento muito bom para cupins. Os produtores mais eficientes confinam o gado na estação da seca.


O produtor de corte brasileiro tem mania de gado Indiano que são animais adaptados a sobrevivência em ambientes de fome generalizada e quase imune aos carrapatos, os mais temíveis inimigos do gado europeu. Dizem que a carne do nelore é especial, mais saborosa. Mas a razão principal eu imagino, é que ela dura mais na mesa, pois é uma carne  musculosa de animais saltitantes que correm alucinadamente nas pastagens sem fim e os convidados ficam mastigando aquela carne de mascar por longas hora enquanto bebericam sua cervejinha ou aguardente. Mas esta é outra história.

Quem quer gado de corte usa o Angus puro ou o cruzamento industrial com o nelore, as demais raças como Bhrama, Senepol e outras bobagens, não servem nem para corte nem para leite, mas são muito úteis para se vender para artistas de tv, cantores sertanejos e outras celebridades do mesmo naipe. Como diz o velho ditado, ninguém perde dinheiro subestimando a inteligencia alheia. 

Alguns produtores usam o GIR, que até dá um leitinho por pouco tempo, muito coice e bezerros peso pluma. Tem alguns que optam pelo Guzerá, imagino que para poderem atender com a matéria prima para a  a industria de berrantes. Outros cortam a cabeça dos animais e penduram como troféus nas paredes de suas casas. Eles têm portentosos chifres. Mas esta também é outra historia.

Mas, perdido neste meio está o velho e bom holandês, que não tem a eficácia do Angus para a produção de carne, mas chega perto. E como Angus não é gado leiteiro, o produtor de leite tem que aproveitar o holandês fêmea para produção de leite e o macho para corte e ele ganha do nelore mas perde do Angus em produção de carne. Mas requer tratamento especial e gera muito mais custos que o saltitante indiano. Mas as coisas mudam.

Dieta de grão inteiro para engorda de bezerros 

A dieta de grão inteiro ( por exemplo milho) é relativamente nova no Brasil e poucos produtores se aventuram nesta técnica ou mesmo a conhecem mas, nos EUA é uma tecnologia em uso desde a época do dilúvio.

Todos sabemos que a energia é fundamental no processo de engorda de um bovino. E o milho é campeão em matéria de energia. Então porque não alimentar os bovinos com milho inteiro e um complemento proteico, vitamínico, mineral e tamponante? Existem núcleos no mercado com esta finalidade e normalmente se usa de 10 a 15% de núcleo e o restante milho inteiro. O tamponante é fundamental pois uma dieta rica ou 100% de concentrado, leva uma queda do PH ruminal e pode produzir abcessos no figado, acidose e até mesmo a morte do animal. Portanto nada de alimentar os bovinos como galinha, na base do ti ti ti ti. A alimentação carece de um período de adaptação, e deve ser servida 3 vezes por dia. Existem tabelas que você deve seguir rigorosamente, sempre orientado por um profissional competente. Os fornecedores de núcleo possuem técnicos que lhe darão toda cobertura necessária.

Não vou entrar em detalhes técnicos pois cada fazenda tem suas peculiaridades e um tipo de gado específico e um monte de ideias do que é o certo. Normalmente neste caso o certo é sempre o errado.

Na Fazenda Veredas no momento o projeto de 4 fases está com 2 delas em testes piloto com 100% de sucesso. A engorda de bezerros e a engorda de vacas descarte. Os outros dois são muito mais arriscados e não encontro literatura sobre o assunto. Vai ser na base do feeling, da intuição e os profissionais da área pouco poderão ajudar. Se der errado serão meus animais que vão pro brejo. Se der certo prometo escrever sobre o assunto. 

Motivadores da dieta 100% grão inteiro

1- redução de mão de obra
2 - redução ou mesmo o fim da produção de volumosos (cana, silagem milho, etc)
3 - economia de maquinário e redução dos custos de combustível e manutenção dos mesmos;
4 - Maior conversão alimentar e maior ganho de peso 
5 - Dificuldades crescente de se encontrar mão de obra
6 - Permitir a uma vaca de corte, a desmama precoce e sua recuperação rápida para que possa parir um bezerros por ano em boas condições corporais. 

É inconcebível uma vaca ficar uns 9 meses com um bezerrão a tiracolo.  O gado de leite já é comum a desmama precoce e quem não faz é porque tem terra sobrando e doido da cabeça pois terra é um bem precioso demais para se criar gadim a pasto. Terra é para agricultura, a não ser claro, aquelas improprias mas, é comum a gente ver fazendas imensas, totalmente planas,  com um boizinho por hectare. Isso é caso de polícia.

Criando os Bezerrinhos Holandeses ou Nelore ou qualquer coisa , menos Jersey claro, pois  neste caso o produtor deve ser colocado em camisa de força e conduzido ao sanatório mais próximo.

Bezerro de gado de leite
Bem, quanto ao holandês macho ele deve ser levado direto ao bezerreiro após mamar o colostro direto na vaca. Se o bezerro foi ganho ou adquirido, reze para ele ter mamado o colostro,  do contrário vai ser uma luta fazer com que ele sobreviva ao ambiente hostil.

Ele deve ser conduzido direto ao bezerreiro. As bezerras devem ser criadas em bezerreiros do tipo argentino. Nada de casinhas. Deixe isto para os cachorros, mas nem eles gostam. Ah, as bezerras não devem receber dieta 100% grão inteiro, pois acumulam gordura gordura no ubere reduzindo a produção de leite no futuro. Para elas use a dieta convencional.

Como bezerros machos o que importa é a quantidade, pois serão vendidos a preço de arroba e não a preço de ouro como as novilhas holandesas, eles devem ser criados em dois espaços distintos nos dois meses iniciais. No primeiro mês criados soltos na área um com sistemas de aleitamento automático ou semi-automáticos e que permitam a maior quantidade possível de bezerros. O espaço deve ser coberto por grama tifton.  Recebem concentrado a vontade. Com 1 mês passam para a segunda área com estrutura semelhante, para permitir a entrada dos novos bezerrinhos na primeira área. Com 2 meses e já comendo 1 Kg de ração / dia passam para a área de dieta de grão inteiro onde permanecerão até os 10 ou 12 meses. Recebem milho inteiro e núcleo da Comigo de Rio Verde, GO. No modelo da Fazenda Veredas, fizemos uma pequena modificação manuais técnicos sobre dieta 100% de concentrado (grão inteiro) e eles ingerem um pouco de volumoso (capim) por razões digamos, estratégicas. A dieta é um pouco diferente do que se encontra em diversos materiais na internet mas, as outras funcionam muito bem também. O custo ´mensal por animal é de R$ 58,00 por animal e eles ganham acima de 1 arroba / mês podendo chegar até 2 arrobas. Quanto mais frio o clima mais ganho de peso. No Mato Grosso este custo cai para R$ 36,00 animal / mês. Eventuais substitutos do milho podem ser usados, como polpa cítrica, casquinha de soja, caroço de algodão, e outros. Cada um deles tem suas vantagens e desvantagens, mas nada é igual ao milho e nem tem preço como o milho. Fuja destas coisas esquisitas que não servem para nada como sorgo em grão e milheto. Use dente de alho, água benta e chame o Van Helsing.