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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Criando Bezerros Holandeses ( Tucuras) - Capítulo 9

Enquanto não se conseguir  um gado tropical que possamos classificar como verdadeiramente leiteiro, o produtor brasileiro terá que usar o gado europeu, geralmente  o holandês para a produção de leite. Um gado cuja temperatura de conforto está entre 0 e 16 graus célsius,  ou seja um gado que definitivamente não se enquadra ao nosso padrão climático. 
Diversos selecionadores heroicos estão tentando conseguir o verdadeiro Gir leiteiro, com boa produção de leite, mansidão, longa lactação, precocidade e, o mais difícil, produzir leite sem o bezerro na sala de ordenha ou sem o uso de ocitocina sintética. Um trabalho digno de Hércules.
Por enquanto, o que temos é o híbrido Girolando, uma mistura do sangue Gir com o Holandês. Dá para o gasto, mas se voltamos muito para o holandês começa-se a evidenciar a fragilidade ante os rigores do clima daqui e a sensibilidade aos parasitas tupiniquins como o carrapato. Se derivamos para o Gir, produzimos um animal rustico, bom de coices e mais adequado para se pendurar num gancho de açougue. Só agora aparecem os primeiros touros provados girolandos e que são relativamente bons, mas que ainda perdem longe dos holandeses puros. Mas o que isso tem a ver com bezerros holandeses? Nada, ou quase  nada.

No hemisfério norte as coisas são mais simples, como o gado holandês é adaptado as condições dali, as bezerras são criadas para produzirem leite e os machos são criados para produzirem carne. Simples assim, mas aqui  não, não se pode criar um bezerro holandês como se fosse um nelore, que sobrevive em nossas pastagens degradadas, comendo ramos, folhas, restos de capim seco e terra. Se você fizer isto, os holandesinhos vão passar desta para outra melhor rapidinho, morrendo de inanição ou tristeza parasitária, transmitidas pelos  companheiros carrapatos que inundam nossos campos. E o que fazer então pois, a não ser que você use semem sexado em todo rebanho, o que é impossível, vai nascer 50% de fêmeas e 50% de machos. Os fazendeiros mais "cruéis" simplesmente matam as crias machos ao nascerem, o que é uma crueldade sem limites. Outros menos cruéis, terceirizam a morte dos bezerros, ao doá-los para quem quiser pegar. Eu, que não nasci no ofício da matança, tento criá-los da melhor maneira possível, que resumidamente é a seguinte:

Assim que nasce o bezerro, ele é mantido com a mãe por 3 dias, alimentando-se do colostro fundamental para sua sobrevivência.

Depois vai para o bezerreiro e alimenta-se com 2 litros de leite pela manhã e 2 litros a tarde durante 15 dias. Primeiramente apenas leite in natura e depois apenas leite em pó, cujo custo é a metade.

A partir do sétimo dia, os bezerros já recebem ração 24%, embora os especialistas recomendem ração com teores de 18% de proteína.  Não importa, continue a fornecer ração 24% que terá resultados melhores, pois nesta fase proteína é fundamental. O volumoso é o próprio capim tifton ou grama estrela existente no bezerreiro.

Aos 2 meses de idade, passam então para um piquete de grama estrela, recebendo 2 Kg de ração 24% dia, permanecendo ali até os 6 meses de idade, quando são levados para outroa área, com piquetes de capim braquiara, o qual permanecem até atingirem os 300 Kg, entre o decimo quarto ou decimo oitavo mês, dependendo de uma série de coisas, como custo dos concentrados e cosequentemente qual foi utilizado em sua suplementação e  da disponibilidade e qualidade da pastagem.

Na estação da seca, além do pasto seco, sua alimentação é complementada por sal proteinado a vontade e 1,5 de casquinha de soja ou 1 Kg de caroço de algodão, dependendo do preço de cada um. Na ausência de casquinha ou caroço, eles recebem 1,5 de polpa cítrica. Isto garante o atendimento aos requisitos de energia mas um deficit de proteína de 100 a 300 grama/dia, dependendo de qual sub-produto foi utilizado, possibilitando uma taxa de lotação de 3 unidades animal (450Kg) por hectare, o que é muio significativo nesta época do ano. A partir dos 300 Kg os bezerros comem apenas pasto mais sal mineral ou proteico dependendo da época do ano.

Custo do bezerro ao longo do tempo:

2 meses =>  R$ 130,00
15 meses => R$ 630,00

A partir daí, o custo do bezerro holandês é semelhante ao de um bezerro nelore, pois ele já está adaptado aos rigores do ambiente. Dependendo do preço da arroba do boi dá até para ganhar um dinheirinho. Tendo sorte pode-se vender um ou outro como tourinho. 


    

sábado, 1 de setembro de 2012

Silagem de Milho ou Cana de Açúcar? - Capitulo 8

Esta é uma questão angustiante que terá que ser respondida por todo aquele que queira se aventurar na atividade leiteira. Eu diria que a melhor resposta para esta questão é: não produzir leite de forma alguma, mas se você é um daqueles românticos incorrigíveis  que sonha em produzir este nobre alimento, deixo aqui um pouco de minha pequena experiência no assunto.

A silagem de milho é sem dúvida alguma o melhor volumoso possível que você pode escolher. Claro, a pastagem é melhor que qualquer coisa mas, na seca os pastos estarão secos, a não ser que você use irrigação, mas esta é outra história. Se você está iniciando na atividade leiteira não se atreva a irrigar pastagens, a menos  que você tenha uma bom conhecimento no assunto mas, se você tiver experiência nesta área, com certeza não estará lendo este simples blog, então voltemos a silagem de milho e pare de me perturbar com estas questões subjetivas e desencaminhantes.

A silagem de milho é um alimento nobre, pois fornece até o dobro de energia de qualquer outra forrageira e,  por possuir um teor baixo de FDN (Fibra em Detergente Neutro) permite um maior consumo de matéria seca pelo animal. Um baixo FDN implica numa taxa de fermentação  ruminal mais alta e consequentemente no esvaziamento mais rápido do rúmen. Mas deixando de entretantos e indo direto aos finalmente,  isto se traduz em maior produção de leite, que é o que, efetivamente interessa ao caro leitor. Então grave isto, alimentos   com FDN abaixo de 50% permitem que eles sejam consumidos muito mais rapidamente que outros  com alto FDN. Por isto a polpa cítrica (FDN = 23) é um excelente complemento na nutrição animal. De rápida fermentação, fornece uma quantidade considerável de energia ao animal,  equivalente a uns 5 Kg de silagem. 

Mas, tudo na vida,  tem seu lado ruim: a silagem de milho é a mais cara das forrageiras e isto principalmente devido a sua baixa produtividade, no máximo 60 toneladas de matéria verde por hectare ou 20 toneladas de matéria seca/hectare. Se você  é principiante contente-se com 30  ou 40 toneladas de matéria verde por hectare. Matéria seca, é o alimento quando extraída toda sua água, pois como sabemos água não engorda nem dá leite, embora seja necessária em ambos processos.

Mas chega de lero lero. Quanto custa isto? A resposta é R$ 80,00 a tonelada para você produzir e para comprar de terceiros, uns R$ 130,00/ton. Cada hectare, alimenta 10 unidades animal (450 KG) durante 6 meses, representando um custo diário por animal de R$ 2,00 para silagem produzida na fazenda e de R$ 3,25 quando adquirida de terceiros. Lá se foram de 3 a 4 litros de leite dia só para pagar o volumoso e não adianta tentar convencer as vacas a fazerem dieta. No mundo animal ainda não existe a figura do costureiro que impõe os modelitos magricelas às nossas mulheres ou como são conhecidas, varas de espantar peru.

No outro extremo das forragens, mais precisamente na seção dos pobres, está a cana de açúcar.  Uma forrageira de péssima qualidade e alta FDN, que permanece até 24 horas no rúmen do pobre animal, enquanto este trabalha compulsivamente,  sem tréguas, para digeri-la. Mas tem uma razoável quantidade de energia e quase nada de proteína (1,5%). Mas é muito produtiva, até 120 toneladas por hectare e o que é melhor ainda, não precisa ser plantada todo ano. O Canavial pode durar de 3 a 8 anos dependendo se a colheita for mecanizável ou não. O custo de manutenção anual por hectare mal chega a R$ 1.000, e podemos trabalhar com  custo por tonelada na faixa de R$ 20,00, o que é uma bagatela. 

E mesmo se produzindo 20% a menos de leite que quando se usa silagem de milho, ganha-se mais por litro de leite, a não ser que, você precise contratar um funcionário só para o trato dos animais com a cana. Neste caso, prefira a silagem de milho, nem tanto em função dos custos, mas quanto menos funcionários você tiver melhor. Se possível coloque um robot na sala de ordenha, melhor ainda.

Se você tem água em abundância, uma possibilidade seria começar adquirindo silagem de milho e uma vez adquirido experiência no novo negócio passe a considerar a possibilidade de pastagens irrigadas com Tifton 85. Uma maravilha, que irá reduzi e muito seus custos de concentrados.

Entre a cana de açúcar e a silagem de milho existem diversas outras forrageiras, como sorgo, milheto e mesmo capim. Não perca seu tempo com estas bobagens.  Ou você escolhe o produto de melhor qualidade ou escolhe o mais barato. Assim como não existe mulher meio grávida também não existe forrageira de qualidade e preço médios. Isto é coisa de desocupado.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Produzir Leite é Bom Negócio? Capitulo 7 - Parte 2

No artigo anterior comentei sobre os modelos atuais de produtores de leite e aqueles que,  penso eu, vão permanecer na atividade e, se mesmo assim, você está curioso com o negócio, vou comentar  sobre  as coisas boas e as ruins da atividade leiteira.

Quando abandonei o mundo glamouroso das telecomunicações em 2004 e decidi me aventurar no universo empoeirado e deselegante do mundo rural, muitos amigos diziam, você está trocando o dinheiro, a vaidade e o stress pela qualidade de vida. Minha esposa, oriunda de uma família tradicional de pecuaristas falou simplesmente: você perdeu o juízo.

Nem uma coisa nem outra: na verdade lidar com animais, com a terra, sentir a vida pulsando em cada lugar, não tem preço, é algo único que poucos podem experimentar. Mas tudo nesta vida tem seu preço. Vamos portanto, decifrar este negócio por partes:

Dificuldades:

1 - Uma atividade que não pode parar


Existem 3 tipos de empresas
  • As que trabalham cinco ou seis dias por semana
  • As que não trabalham dia nenhum (estatais)
  • E as que não podem parar e neste tipo,  se encaixa a atividade leiteira.
Então, tenha em mente esta lição número um: a atividade, faça chuva ou faça sol, não pode parar, nem no natal nem em dia nenhum. Isto a princípio parece contornável, mas com o tempo lhe trará um stress parecido com o do mundo dos executivos.

2 - Pessoas não querem viver no campo


O ser humano é um ser social e o que ele quer mesmo é barulho, multidão, shoppings e as benesses e os horrores de uma cidade. Não adianta você tentar convencê-lo com os prazeres da vida bucólica, com o ar limpo, o silêncio e outras bobagens. Não, ele quer ficar preso na hora do rush, gritar e buzinar como um louco, beber todas no boteco da esquina, discutir futebol e mulheres com os amigos. Enfim, um ser social, uma criatura elevada, quase espiritual.

3 - Máquinas quebram e na pior hora possível


Antigamente para se produzir leite, precisava-se de umas poucas vacas, um balde, um banquinho e uma mão de obra barata e escrava, que trabalhava feliz sete dias por semana. Hoje você precisa de muitas vacas, uma ordenhadeira mecânica, um resfriador de leite, tratores, máquinas agrícolas, veterinários, uma infra-estrutura sofisticada e complexa, e obviamente uma mão de obra que deixou de ser barata, na verdade está muito cara, trabalha pouco, é insatisfeita mesmo com todas as regalias possíveis e tem folgas semanais. Para piorar, as máquinas também parecem também dispostas a largar o campo e quebram, com menos frequência que os funcionários, mas quebram. E estes pequenos problemas são como o veneno de uma abelha, ele é acumulativo, você vai contornando, administrando  mas um dia você realmente percebe todo o seu efeito e o resultado é stress. 

4 - A produtividade precisa crescer em média geométrica

Em 2004, uma fazenda de leite para ser produtiva, precisava produzir 10 mil litros de leite/hectare. Oito anos depois consegui atingir 20 mil litros/hectare, mas os padrões mudaram mais rápido e hoje o ideal,  é se produzir 60 mil litros/hectare, muito embora a produtividade média nacional  não passe de míseros 2 mil litros/hectare. Mas se você quer produzir leite, esqueça o Brasil e seus números, pois a realidade da industria láctea no país ainda está no século passado. Na verdade a  pecuária de leite tupiniquim, está anos luz atrás da avicultura e da suinocultura brasileiras. Mas chegaremos lá  e seremos os primeiros do mundo nesta área também.

5 - Globalização e falta de uma política governamental para o setor

O produtor de leite brasileiro nunca recebeu subsídios como o americano e o europeu, que lhes permitiram criar uma infra-estrutura invejável, tecnologia e o melhor rebanho possível. O pobre produtor brasileiro, sempre marginalizado, sobreviveu como pôde e o resultado é a baixa produtividade do setor, que faz governo e ecologistas criticarem os pobres coitados que ainda garantem o nosso leite de cada dia. E hoje tudo é muito mais complicado, pois os preços dos insumos dependem de Chicago, e uma seca como aconteceu nos EUA, faz os preços do milho e da soja atingirem valores nunca antes vistos por aqui, embora a produção nacional venha batendo recordes em cima de recordes. Mas um governo de ignorantes como o nosso, de repente toma uma medida estupida pensando em aumentar as exportações e deixa o dólar subir como um foguete. O resultado é que um saco de soja saiu de 32 reais para 80 reais e os nossos agricultores preferem exportar para os Chineses, claro, do que vender aqui. É bom para o país pois, entra mais dólares, mas a inflação vai voltar com força e ai os economistas Petistas provavelmente tomarão outra atitude igualmente estúpida. Para piorar as coisas ainda mais, geralmente quando os preços dos insumos estão altos, acarretando maiores custos por litro de leite, os preços pagos ao produtor caem, pois o Brasil precisa socorrer seus irmão Argentinos e Uruguaios e as multinacionais do setor, passam a importar leite caro de suas matrizes, que suspeito ser uma fonte de remessa de divisas para o exterior, da mesma forma que faz uma multinacional do setor automobilístico ao importar um simples parafuso por 10 mil dólares a unidade.

Vantagens

1 - Não existe esforço nenhum para vender o produto

Este é um dos dilemas das empresas e um de seus maiores custos. Sem vendas não existe receitas. O produtor de leite vende para quem quiser, e na verdade o mercado funciona ao contrário, é o Laticínio que investe em equipes que irão disputar com os concorrentes o leite do produtor.

2 - Quanto mais se produz maior é o valor recebido por litro de leite

Normalmente na industria, quanto mais se produz, maior a economia de escala, e se há excesso do produto,  menor é seu valor. A economia de escala no leite trabalha a favor do produtor. Quanto mais ele produz, mais ele recebe do Laticínio. Claro, se todos produtores produzem muito e inundam de leite o mercado, os preços despencam. Mas como o Brasil é um país continental, norte e sul tem chuvas em diferentes épocas do ano e isto contribui para uma estabilidade maior de preços no país. 

3 - O clima e a terra são generosos no Brasil

País nenhum no mundo possui as vantagens do Brasil, que na estação das chuvas pode por 6 meses manter seus rebanhos em pastagens tropicais, com suplementação por concentrados proteicos e energéticos para que os rebanhos atinjam a máxima produção. E na estação da seca, acontece algo extraordinário, o produtor tupiniquim pode contar com a cana de açúcar, um volumoso de baixa qualidade mas muito barato e que permite, com a suplementação proteica, uma media de leite muito boa. E para o gado solteiro, temos as pastagens, agora secas, mas que fornecem o chamado feno em pé, com uma quantidade de energia razoável e que com uma fonte adicional de proteína, permite o alimentar adequadamente o gado que não está em lactação bem como as novilhas ou o gado de corte. Outras fontes de volumosos, mais nobres e caras são as silagens de milho sorgo e até mesmo capim, que permitem uma produtividade maior. E temos ainda diversos sub-produtos, como polpa cítrica, caroço de algodão, casa de soja e outros que podemos utilizar para a suplementação dos bovinos.

4 - Venda de animais constitui uma fonte ótima de receitas

O leite é um produto primário de uma fazenda, mas a criação de animais, especialmente os de alto valor genético,  constitui um produto de alto valor adicionado. Assim, a venda de novilhas transforma-se numa ótima fonte de renda para as fazendas produtoras de leite, chegando a ser, às vezes muito mais rentável que que o leite em si próprio. E no Brasil, produzir uma novilha por inseminação artificial, sem utilizar transferência de embrião ou FIV, é extremamente barato senhores, em torno de R$ 1.000 reais, embora a maioria dos produtores jurem de pés juntos, que o preço é muito maior. Não deem muita atenção, pois, neste mercado há muito mais mentiras que verdade. Estas novilhas serão vendidas com preços a partir de 3.000 reais podendo chegar facilmente em leilões de elite de 6 até 8 mil reais por cabeça.

5 - A pecuária de Corte é um complemento natural da atividade

Uma regra básica, nunca deposite 100% de seus investimentos na produção de leite, prefira a diversificação,  50% em pecuária de corte e 50% no leite e assim você irá reduzir seus riscos pela metade, pois normalmente quando uma atividade está em baixa a outra está em alta. E não me venha falar que você não tem terras, com o pastejo rotacionado, tema de um artigo deste blog, você multiplica a capacidade de suas terras por 10, até mesmo 15 vezes.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Produzir Leite é Bom Negócio? Capitulo 7 - Parte 1

Os Censos Agropecuários de 95 e 2005 revelaram que meio milhão de pequenos produtores de leite até 50 litros/dia abandonaram a atividade naquele período. Estes são o que chamamos de produtores de subsistência, com renda de no máximo 4 salários mínimos e que,  ou crescem ou mudam de negócio ou procuram empregos nas cidades, aproveitando a boa fase da economia.Por outro lado, os produtores de 50 a 200 litros/dia quase que duplicaram, passando de 190 mil para 250 mil e podemos deduzir que do um milhão e meio de produtores de até 50 litros/dia, existentes em 1995, apenas 60mil buscaram aumentar a produção introduzindo novas tecnologias. Os demais, mais exatamente meio milhão como dissemos, chutaram o pau da barraca e mudaram de negócio e então vão resistindo até quando não der mais.

Mas o dado mais curioso, é que metade dos produtores com produção acima de 200 lt/dia também saiu do ramo, restando apenas 14 mil produtores, que vamos chamar de grandes, e que respondem por  por 20% do leite produzido no país. A metade do leite brasileiro vêem das fazendas que produzem até 200 litros/dia. São basicamente fazendas familiares, que possibilitam uma renda de até 10 salários mínimos mensais e que permitem uma família no campo viver razoavelmente bem, pois o custo para se viver no campo é muito menor que nas cidades.

Mas a verdade é que a segunda geração destes produtores, ou seja, os filhos, possuem um desejo irresistível de se mudarem para as cidades aliado ao fato que a maioria destas propriedades são pequenas e quando  divididas entre os filhos não permitem manter o mesmo padrão de renda que seus pais proporcionaram, a não ser nas raras famílias que conseguem trabalhar num sistema do tipo cooperativa.

O mais provável que vai acontecer é que uma pequena parte dos pequenos produtores até 50 litros irá migrar para a faixa intermediária e o restante irá desaparecer da atividade. Parte dos produtores médios até 200 litros continuará crescendo e um novo tipo de megaempreendedor irá surgir entra os grandes produtores, que farão investimentos vultuosos criando verdadeiras indústrias produtoras de leite, em nada lembrando uma fazenda tradicional, com modelos similares ao que podemos ver neste documetário de uma empresa de 500 mil litros/dia instalada no Vietnã.



O restante, que ainda usam o modelo tradicional e que não  possuem um aporte de capital necessário vão sucumbir perante as dificuldades crescentes de se encontrar mão de obra e pelos custos cada vez maiores da própria mão de obra e das commodities agrícolas num mundo cada vez mais globalizado. 


Estas mudanças acontecem no mundo todo, e há poucos dias li uma reportagem do New York Times que contava uma história de uma geração de produtores de leite nos EUA na qual, a primeira geração, os avós, criaram os filhos muito bem, com uma produçao diária de 800 lt/dia. Já a segunda geração, os pais, tiveram que produzir dois mil lt/dia pára criar bem seus filhos. A terceira geração, os netos, por sua vez mesmo produzindo quatro mil litros/dia não estão conseguindo a rentabilidade necessária para permancecer no ramo. As história são parecidas, mudando apenas as escalas de produção e alguns aspectos culturais.

Será Continuado.






sábado, 28 de julho de 2012

Causas da Mortalidade Em Bezerras - Capítulo 6

Os especialistas admitem como normal, uma taxa de mortalidade de 5% em bezerras holandesas ou quase,  até o terceiro mês. Segundo as estatísticas dos estudiosos no assunto, esta taxa varia de 3 a 33% no Brasil, mas a verdade é que, as únicas mortes que considero difíceis de se evitar são as que acontecem nos partos difíceis nas madrugadas. As demais podem ser evitadas facilmente.
O primeiro cuidado que devemos tomar, é em relação ao colostro, que deve ser administrado a vontade nas primeiras 6 horas de vida da bezerra, pois é neste intervalo de tempo que  os linfócitos T e outros agentes imunológicos presentes no colostro da mãe  são transferidos via  intestino da bezerra para o seu organismo. Depois das fadadas 6 horas, podemos dizer metaforicamente que,  os portais do intestino  se fecham e o sistema imunológico da bezerra estará irremediavelmente desprotegido e o que geralmente se vê em nestes casos é uma sucessão interminável de doenças que normalmente acabará levando o animal à morte.
Outro aspecto importante é que,  as bezerras ao nascerem, ainda não ativaram seus mecanismos reguladores de temperatura, e perdem calor rapidamente em função de sua grande superfície corporal. Os estudiosos  têm várias teorias, uma delas preconizando que as bezerras sejam levadas para os bezerreiros uma hora após o parto e terem ingerido o colostro. Assim, elas estarão protegidas do stress térmico e da contaminação ambiental,  e por que não, do olho-gordo, mau olhado, praga de mãe e outros perigosos patógenos deste e do outro mundo.
Na Fazenda Veredas, fazemos a assepsia no cordão umbilical com Umbicura, mesmo sabendo que o correto é o  recomendado pelos especialistas,  iodo a 7% mas, as vezes a preguiça é incurável. E como tem funcionado, vamos mantendo este método prático e provavelmente mais caro. Optamos por deixar a bezerra em companhia de sua mãe por três dias, pois acreditamos que  natureza é sempre mais sábia e o instinto da mãe, com certeza irá  proteger a bezerra de uma forma mais eficiente, embora eu as vezes desconfie que o verdadeiro motivo é a mais uma a vez aquela qualidade principal do fagueiro povo de Pindorama: a preguiça.  Depois disto, ela é levada para o bezerreiro.
No bezerreiro, cada bezerra recebe quatro litros de leite por dia, dois pela manhã e dois a tarde. Nos primeiros 20 dias utilize leite (colostro e leite descartado) e depois migre para o leite em pó de soja, bem mais barato. Já criei bezerras com seis litros por dia, dados de uma só vez. Na verdade, você pode criá-las com 8 litros e garanto, as bezerras vão adorar e você irá a falência. Quatro litros ao dia é o suficiente e ração, claro. Pode servir na primeira semana para ela ir se acostumando.  Comece com 100 gramas / dia e vá aumentando até atingir 1 Kg / dia, o que geralmente acontece lá pelos sessenta dias, quando a bezerra deverá estar com 100 Kg e pronta para ser desmamada. O ideal é fornecer feno juntamente com a ração, mas optamos pelo Tifton plantado na área do bezerreiro. 
Existem diversas causas que podem levar uma bezerra a morte, e a principal delas é a conjunção das incompetências dos  funcionários e dos produtores, ampliadas pela preguiça, em  prestar atenção em seus animais e tratá-los da maneira correta.
Estas falhas operacionais impedem o controle adequado dos carrapatos, que transmitem a chamada tristeza parasitária, uma espécie de anemia que associada ao quadro de debilidade e baixa imunidade do animal, traz consigo as malfadadas diarreias que depois evoluem para pneumoenterites, septicemias e morte. Normalmente o produtor fica tratando a diarreia e  nem se dá conta  que tudo começou com um único carrapato. Portanto o controle permanente dos carrapatos é fundamental. 
Outro ponto importante, é  que você precisa ensinar seus funcionários a reconhecer a tristeza mediante o exame dos olhos ou da boca ou vulva da bezerra. A anemia é facilmente reconhecível. Vermelho significa que o animal está sadio ainda, ou não tem tristeza. Rosa ou branco, são prováveis sintomas dela, e é necessário o tratamento imediato. Um animal jovem com ausência de anemia visível  mas presença de carrapatos e recusa em beber leite ou aparência de doente, é preferível   tratar preventivamente. 
As diarreias são inevitáveis, fruto da falta de higiene nos utensílios, no próprio leite e principalmente na água e nos vasilhames de ração e água. Uma limpeza bem feita semanalmente controla bem. O ideal seria uma limpeza geral diária, mas se alguém conseguir isto me avise pois quero aprender. Mas, as diarreias são perfeitamente controláveis com medicamentos como Trigental e nos casos mais graves, o Fortgal , por exemplo. Mesmo se sua origem for um vírus, as bactérias presentes no intestino vão aproveitar a oportunidade e atacar, e estes medicamentos pelo menos irão controlá-las. 
Mortes são raras e se ocorrerem são devido a desidratação, facilmente contornável com soro.
As pneumonias   são raríssimas, mas isto eu acho que depende do meio ambiente de cada fazenda.
Uso apenas ração 24% para as bezerras, pois a proteína é fundamental para uma bezerra  crescer e poder parir aos 24 meses. Os especialistas preconizam ração 18%, mas eu prefiro a 24% pois,  foi só assim que consegui emprenhá-las aos 14 meses. E a ração que utilizo é farelada, que segundo alguns,   levaria meus animais a  crises de pneumonia. Em três anos vi apenas 1 caso cuja sintomática sugeria pneumonia. 


sábado, 7 de julho de 2012

Simulador de Fluxo de Caixa para Fazendas de Leite - Capítulo 5

A pecuária de corte é um negócio de baixo risco e consequentemente de baixa lucratividade. Já a pecuária de leite é um negócio extremamente perigoso, pois o produtor sempre parece estar a um ou dois passos da produção ideal que lhe dará uma margem boa e uma razoável  segurança para enfrentar as tempestades que acometem periodicamente  o setor, pois para o governo, pinga e cerveja são produtos essenciais enquanto o leite é considerado um produto supérfluo e é praticamente desconhecido dos políticos em geral.  
E o caminho mais rápido para o insucesso é não possuir um controle adequado do seu fluxo de caixa mensal, que é somatório dos valores gastos e recebidos na atividade durante um período definido.
Empresas trabalham com mecanismos mais complexos que são as ferramentas de análise de retorno financeiro, mas se você é um produtor rural, não perca seu precioso tempo com estas ferramentas, pois elas podem até lhe dar perspectivas positivas enquanto você está em processo de falência irrecuperável.  Deixe estes brinquedos caros para os profissionais. Eles cuidarão deles com muito carinho tentando enganar seus chefes, sempre com ajuda da estatística, que é a arte de mentir com precisão.
Na figura acima, vocês têm uma ferramenta bastante simples, em excel, que desenvolvi no início da minha atuação na atividade e que me ajuda e às vezes me assusta  muito. Nas fases boas ela me dá a tranquilidade para gastar e geralmente invisto  além do permitido e nas fases ruins, as simulações são sombrias  e me fazem esgotar os últimos estoques de minha criatividade,  para manter o barco a tona, até  a tempestade passar.
Um conselho, não  mostre o simulador a sua mulher pois ela vai ficar repetindo: eu falei, fazenda é um  buraco sem fundo, blá , blá, blá...Pausa, as mulheres são mais realistas e menos sonhadoras e às vezes um pouco de realismo faz bem.
O simulador de Fluxo de Caixa ou Cash Flow, lida com todos os custos variáveis, cujo o principal é o gasto com alimentação. É variável pois depende do numero de vacas e da produção delas. O outro ítem,  são os Custos Fixos, como, por exemplo, os salários dos funcionários, seguros, etc. Eles são mais ou menos constantes ao longo de um período.
O último componente do simulador  são as receitas, da venda do leite e de animais.
O resultado de tudo isto, te dá a noção exata da sua situação e o simulador também te informa quanto litros de leite você teria que produzir para atingir o ponto o seu ponto de  equilíbrio na atividade, o chamado break even ou quanto deveria valer o litro de leite para sua atividade ser lucrativa. 
Nesta planilha não entra os valores dos investimentos em animais, terras e maquinários. Isto só é considerado na planilha de análise de retorno do investimento, que lhe dirá basicamente se era melhor você ter aplicado seu dinheirinho na poupança ou ter entrado na atividade leiteira. 
O Simulador de Fluxo de Caixa tem que ser alimentado pela planilha de controle de prenhez de seus animais, que lhe dirá quantas vacas você terá em lactação mês a mês, e conhecendo a média de cada animal, você poderá fazer uma simulação ao longo do ano, de custos e receitas. Assim, você terá uma noção muito precisa se num determinado mês você precisará comprar animais para aumentar a produção e assim cobrir os custos, ou terá disponibilidade de vender animais para obter um resultado positivo ou aumentar seu lucro.
Isto exige muito trabalho e um controle muito eficiente e uma perfeita noção de todos os custos envolvidos na sua atividade.

A maioria dos produtores não tem a menor noção do que está se passando e frequentemente fracassam. O  simulador por si só não garante que você será bem sucedido na atividade, pois isto depende de uma série de outros fatores. Como minha vó dizia, quem não têm competência não se estabelece e eu adiciono outro fator fundamental: é preciso ter a perfeita noção de timing, saber a hora certa de recuar e vender animais para fazer caixa e identificar o momento propício de avançar. A Atividade Leiteira não é definitivamente um negócio linear, no qual você estabelece metas que serão perseguidas ao longo de um período. Ela é mais parecida como uma batalha, em que não raro táticas de guerrilha são mais eficientes. 

EUCLIDES DA CUNHA escreveu isto para os combatentes de Canudos mas, é válido também para os produtores de leite: “Atravessa a vida entre ciladas, surpresas repentinas de uma natureza incompreensível, e não perde um minuto de tréguas. É o batalhador perenemente combalido e exausto, perenemente audacioso e forte; preparando-se sempre para um recontro que não vence e em que se não deixa vencer.”
Interessados no simulador exibido na figura acima, podem pedir uma cópia no email rogerio.ruffino@gmail.com.
A seguir, duas simulações de resultados de fluxo de caixa:


Exemplo1: Fluxo de Caixa para  60 vacas em lactação e preço de 80 centavos por litro para diferentes médias de lactação por animal. Custos Fixos e Variáveis relacionados na planilha.



Como podemos ver o ponto de equilíbrio se dá quando a média de produção do rebanho atingir 22 litros / dia.

Exemplo 2: Fluxo de Caixa para 60 vacas em lactação e média de lactação de 18 litros / animal para diferentes preços pagos por litro de leite.Custos Fixos e Variáveis relacionados na planilha.


Neste caso nada podemos fazer, mas o preço do leite para um fluxo de caixa positivo para esta média de produção seria de R$ 1,00 por litro.


sábado, 30 de junho de 2012

Pastejo Rotacionado - Capitulo 4

A produção de grãos e especialmente a produção de cana, têm mudado muito rapidamente o perfil da pecuária Brasileira, que se caracterizava pela imensidão das pastagens e pela baixíssima lotação de animais por hectare. Parecia uma pintura surrealista, um boizinho na vastidão do horizonte. Terras baratas permitiram ao Brasil manter o preço histórico da arroba ao redor dos US$ 20. Mas tudo isto mudou quase da noite para o dia, com o crescimento dos Brics, em especial da China, pela entrada do capital especulativo no mercado de commodities agrícolas e pela idéia duvidosa dos tais combustíveis renováveis, em especial a cana no Brasil, que está empurrando a pecuária para as terras  de relevo mais sinuoso ou degradadas. Na carona, veio, com um século de atraso, o confinamento de bovinos.


Antigamente, a norma era se criar por alqueire (4,8 hectares), uns 5 boizinhos ou umas 4 vaquinhas de leite. A produtividade de leite por hectare era de míseros 1000 litros/ano e a de carcaça de 270 kg/ano e isto nas fazendas mais eficientes. Na realidade, a média nacional é de 4 arrobas/hectare/ano, mas isto nem é bom comentar, pode dar azar e estragar nossa imagem lá fora. Até meados do século passado levava-se até 8 anos para um animal chegar ao ponto de abate. Pelo menos o pobre ruminante, quando ia para o abatedouro, já tinha assistido a 2 copas do mundo de futebol. Depois a média caiu para 30 meses e agora já se trabalha com menos de 2 anos um animal atingir 18 arrobas.

Fazendas produtivas, precisam produzir pelo menos 30 mil litros de leite por hectare/ano ou 1000 Kb de carcaça/hectare/ano. Existem 2 formas de se conseguir isto. A primeira é através do confinamento e a segunda é via o manejo adequado das pastagens e semi-confinamento na estação seca. No caso do leite, o confinamento na seca é necessário a não ser que se utilize da irrigação de pastagens.

O pastejo rotacionado é uma técnica muito eficiente que consiste em colocar a lotação máxima de animais por 1 dia apenas em um determinado piquete. Os animais somente irão retornar àquele piquete de 25 a 30 dias depois, permitindo o descanso e a plena recuperação da pastagem. Ela possibilita trabalharmos com 10 até 30 animais por hectare, na época das águas. Na Fazenda Veredas, a lotação média é de 13 animais por hectare durante os 6 meses de chuva. 

E por que por 1 dia e não por 2 dias ou mais, pois um pasto somente começa a brotar depois de 4 dias após o pastejo? Vou dar 3 respostas que observamos na prática:

1 - Mais de um dia de pastejo temos a formação das trilhas, que reduzem a área produtiva do piquete;
2 - Ocorrerá o pisoteio inútil pelo gado em área já pastejadas;
3 - Um piquete com área equivalente a cinco piquetes de um dia, dificilmente permitirá o pastejo por cinco dias, pois vacas de leite são manhosas e seletivas. Odeiam áreas já pisoteadas em excesso.

Alguns países já usam o pastejo rotacionado por horas, mas isto é coisa de doido varrido, pois numa época em que ninguém mais quer trabalhar no campo, técnicas como esta que exigem mão de obra intensa devem ser esquecidas. Claro, existem até sistemas automáticos mas se você tem alguma sensatez não dê atenção a algum lunático que venha falar em piquetes com porteiras automáticas. Use colar de alho e água benta se necessário, para espantar o infeliz.

Cada Fazenda possui sua própria realidade. Na Fazenda Veredas trabalhamos com 6 conjuntos de piquetes independentes e com corredores individuais. Na verdade o sistema ficou tão complexo que eu já estava vendo a hora que teria que instalar semáforos para regularizar o transito dos animais.

Na pista de alimentação, os animais em lactação são divididos em 4 lotes, cada qual recebendo a alimentação de acordo com sua produção. Cada 1 destes lotes tem a sua disposição em torno de 40 piquetes, nos quais passarão toda a estação das águas de 5 a 6 meses. Pastejam 1 piquete por dia, e têm 10 piquetes de reserva para os meses de veranico e para o final das águas quando os pastos já não respondem satisfatoriamente à adubação química.
Temos ainda:
- um conjunto de piquetes para vacas e novilhas
- um conjunto para novilhotas de 6 a 12 meses
- um conjunto para novilhotas de 2 a 6 meses
- um conjunto para o gado de corte.

 Piquetes Gado de Leite Fazenda Veredas

As vacas em lactação comem em média de 30 m2 de capim/dia. A área que você irá utilizar por piquete é o numero de vacas multiplicado pelo o consumo/vaca/dia. Se cada lote tem 30 animais, você deverá fazer os piquetes de 900 m2.


Se você pensa que suas novilhas vão comer a metade disto, está muito enganado. Uma vaca recebe grande parte de sua alimentação via concentrado, ao passo que uma novilha ou vaca seca deverá extrair do pasto toda matéria seca que ela necessita por dia, o que é em torno de 2,5 a 3% do seu peso vivo. Assim uma vaca ou novilha de 400 Kg pode consumir até 12 kg de matéria seca ou 48 kg de capim/dia. Logo, para o gado que não recebe concentrado é melhor trabalhar com 50 a 60 m2 de consumo capim/dia. Mas tudo isto também depende do tipo de capim que você está usando, mas esta é outra história e sera discutida noutro capítulo.

No caso da Fazenda Veredas, utilizamos dois tipos de capim, o Braquiara Brizanta (Braquiarão) e o Tifton. Resistimos muito em introduzir novas variedades mais produtivas e menos tolerantes como o Mombaça e o Tanzânia, pois o mercado do leite ou carne é muito instável, e tudo deve ser feito passo a passo.

O Braquiarão tem algumas virtudes, como sua resistência, boa tolerância as terras com baixo PH, que é o caso do nosso cerrado, uma tolerância razoável a cigarrinha e boa produção de forragem. 

Mas o uso de pastejo rotacionado na minha opinião não seria viável, sem os adubos protegidos que possuem uma película composta de um polímero especial que só se dissolve em contato com a água, protegendo assim os componentes mais voláteis, como a ureia. E mais, este polímero se liga ao alumínio presente em nossas terras permitindo uma melhor absorção do adubo. Assim, mesmo sob sol escaldante pode-se jogar o adubo na terra, que ele não vai evaporar. Isto permite aplicar a regra básica do pastejo rotacionado. Adubações diárias assim que o gado deixar o piquete.

E o mais importante: adubação orgânica (esterco do curral e área de confinamento) é fundamental. Um dos bens mais valiosos que uma fazenda pode produzir.

Na figura ao lado exemplos de 4 módulos de piquetes plotados no google earth. Temos piquetes menores para o gado de leite, à direita, e piquetes maiores para vacas secas, novilhas ou gado de corte.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Criando as Bezerras - Capitulo 3

Bezerreiro Fazenda Veredas (Modelo Argentino)
Para uma vaca liberar o leite durante o processo de ordenha é necessário uma série de estímulos, para que ela produza um hormônio chamado oxitocina que irá desencandear o processo pelo qual podemos coletar o leite. 

Vacas com graus de sangue de 3/4 Holandês para baixo, normalmente necessitam do estimulo do bezerro para liberar a oxitocina e consequentemente o leite.

É por isto que antigamente se tirava leite de uma vaca com o bezerro amarrado ao lado da vaca, isto no tempo das ordenhas manuais. Mas bezerros e ordenhas mecânicas são incompatíveis,  pois acabam por atrasar o serviço, gastar mais energia elétrica e provocar choro e ranger de dentes entre os ordenhadores visto que bezerros não são muito inteligentes.

Um rebanho igual ou superior a 7/8 de grau de sangue  holandês, pode-se ordenhar perfeitamente sem o bezerro, pois a vaca, neste caso, desce o leite simplesmente com o estimulo das massagens no ubere pelo ordenhador e pelo próprio ambiente e sons da ordenha.  

Os produtores que não tem ainda um rebanho uniforme 7/8 ou superior, mesmo assim fazem a desmama precoce do bezerro, e usam oxitocina sintética aplicada na veia com seringas de 1 ml, para estimular as vacas a descerem o leite. não é o ideal, e provoca efeitos colaterais discutíveis e não exatamente identificados ainda. Mas já vi relatos de ovários policísticos e infertilidade precoce. Mas nunca encontrei nada definitivo sobre o assunto.

Mas então o que fazer com o bezerro, pois eles precisam ingerir leite por pelo menos por 2 meses até estarem aptos a sobreviverem de  volumoso (capim, silagem ou feno) e concentrado.

Só existe uma maneira eficaz, colocá-lo num bezerreiro onde ele ficará amarrado a uma corda, com um pouco espaço de locomoção e sem contato físico com os demais e recebendo claro, leite 2 vezes ao dia mais concentrado.

Muitos produtores preferem criar os bezerros livres, como na natureza, em pequenos pastos, e recebendo leite 2 vezes ao dia. Esta é a maneira mais eficiente de levá-los desta vida para outra melhor se é que bezerros têm outra vida. Bezerros brincam muito, têm muito contado físico e pior, mamam uns no outros. O que leva a disseminação de doenças e futuras vacas com peitos perdidos.

Na Fazenda Veredas tínhamos um índice de perda de bezerros muito grande, quando usávamos este método natural e assassino. 

E lutávamos para atingir o índice normal de perdas recomendado pelo pessoal especializado que é de 2% a 3%.

Passei então a estudar os diversos modelitos de casinhas de bezerros sem nunca entender o por quê de se usar casinha de bezerros pois eu não imagino uma vaca livre na natureza ( se é que isso existe) construindo uma casinha para seu bezerro.

Até que me deparei com o método simples de nossos hermanos argentinos. E lembrando de Alvin Toffler: “A tecnologia não precisa ser grande, cara nem complexa para ser sofisticada.”

O fundamental para um bezerro é a sombra,  e a maneira mais eficiente de se proporcionar isto é com um sombrite. Testamos sombrites com proteção da luz do sol de 50% a 85%. Percebemos que o de proteção 50% proporciona um coforto térmico bom para os animais e por ser mais leve dura muito mais e causa menos problemas de manutenção alem de ser muito mais barato.

Os sombrites são sempre colocado no sentido norte-sul, a uma altura de 1,80 do solo,  de tal modo que a luz do sol incida sobre toda a área em que o bezerro caminha ao longo do dia, ajudando a secar e a esterilizar a área.

Como a sombra se desloca no sentido oeste para leste , os bezerros vão mudando instintivamente de posição ao longo do dia.

Arames de 3 metros são disposto no sentido leste a oeste, rente ao solo, numa distancia de 3,5 metros um do outro, para o deslocamento dos bezerros que são presos nele, um em cada arame,  por uma corda e um gancho giratório de metal, chamado de mosquetão.

A distância de 3,5 m de um arame ao outro é para que os bezerros não se toquem, evitando assim a transmissão de doenças.

Os arames são presos em cada ponta em postes de eucaliptos de 5 a 7 cm de diâmetro, e neste postes pendurados um vasilhame com água e outro com ração a partir do quinto dia. A água deve ser trocada diariamente e os vasilhames lavados semanalmente, no mínimo.

Nas épocas mais críticas da estação das chuvas, é necessário dar banho de iodo a 2% nos bezerros com uma bomba costal, para que eles não sejam atacados por fungos oportunistas.

Utilizando este método, ficamos 3 anos sem perder uma bezerra sequer, mesmo trocando funcionários.


Ao lado podemos ver uma série de modelitos fantasiosos para bezerreiros. São caros, e como a luz do sol não incide diretamente sob o abrigo necessitam ser mudados periodicamente de lugar, o que se deixados por conta dos funcionário dificilmente ocorrerá.  Os americanos como podem ver levam tudo ao extremo e tem modelos que são verdadeiros campos de concentração para os bichinhos. 



segunda-feira, 25 de junho de 2012

Escolhendo o Rebanho - Capítulo 2

Para o produtor iniciante, para se produzir leite é necessário primeiramente uma vaca e ele imagina que uma vaca é uma vaca e que todas dão leite, o que pode estar tecnicamente correto mas na verdade existem vacas de corte que dão leite apenas para garantir a sobrevivência e o bom desenvolvimento do bezerro e vacas de leite, que foram ao longo de gerações selecionadas pelo homem para que produzam  mais e mais leite. E o que se tem hoje são verdadeiras anomalias da natureza, vacas podendo produzir  80 ou mais litros de leite por dia. É muito comum vacas com  40 litros/dia em qualquer fazenda um pouquinho mais tecnificadas no negócio do leite.

Existem basicamente 2 raças de bovinos: Bos taurus taurusgado europeu, e o Bos taurus indicus, ou gado zebuindiano. Ambas raças sofreram intervenções para se especializarem na produção de carne ou de leite. Um exemplo: o Nelore uma espécie da  raça Zebu, foi trabalhado sempre no sentido de se ter a melhor produção de carcaça, de tal forma que o homem exagerou, pois a cada geração ela se tornou pior na produção de leite, sendo necessário dar um passo para trás,  pois as mães já não conseguiam dar o leite necessário para um bom desenvolvimento dos bezerros. Na outra linha temos o gado holandês, imbatível na produção de leite. 

No Brasil, as raças mais utilizadas na produção de leite, são a Holandesa e o Gir Leiteiro, que cruzadas entre si, geraram uma raça Brasileira chamada Girolando, que une a rusticidade do Gir com a produtividade do holandês. Quanto mais voltado para o Holandês, menos rusticidade e maior produção de leite e maior longevidade na lactação. Quanto mais voltado para o Gir, mais rusticidade, menor produtividade e lactações mais curtas.

O gado Gir e o Girolando com grau de sangue de no máximo de 50%, são  adequados para a produção de leite exclusivamente a pasto, o chamado leite verde. Já o Holandês e o Girolando com grau de sangue Holandês acima de 50% são indicados para sistemas mistos, com pastoreio na estação das águas e  confinamento na seca.

Produtores iniciantes que não dispõem de infra-estrutura para confinamento, cometem um erro muito comum, ao escolherem vacas mais voltadas para o holandês, esquecendo-se que na seca, sem alimentação adequada, elas vão definhar reduzindo drasticamente a produção de leite. E se nada for feito, provavelmente irão morrer de inanição.

Produtores mais precavidos, escolhem o tradicional 1/2 sangue ou mesmo vacas Gir. Outros, compram vacas baratas, o chamado tatu com cobra. Vacas mistas, frutos de cruzamentos de vacas neloradas com bois nelorados e que resultam num animal com sangue Gir, Nelore, e Holandês, o chamado triclós ou F2, mas esta é outra história. Normalmente, estas vacas amarra-cachorro produzem lactações com menos de 1500 litros em 300 dias ou média de 5 l/dia, enquanto que uma holandesa bem nutrida pode dar lactações de até 16 mil litros em 300 dias ou média de 50 l/dia.

Existe uma outra raça com um certo appeal entre os produtores, a Jersey, que são vaquinhas pequenas, que comem pouco e produzem relativamente muito leite e com alto teor de gordura e proteína, gerando preços melhores aos produtores, pois quanto maior a gordura e proteína maior a bonificação por litro de leite.

É muito comum o cruzamento do Jersey com o Holandês, gerando o  Jersolando. O produtor brasileiro tem um certo desejo incontido pelos cruzamentos entre raças, o que melhora algumas características e piora muitas outras. Mas verdade seja dita, a raça Girolanda é um sucesso, principalmente o 7/8, que é dócil e dá leite sem bezerros em longas lactações. E também o 1/2 sangue, com ótima aptidão para produzir leite a pasto, boa produção de leite e de coices no ordenhador.

Produzindo Leite: Introdução - Capitulo 1

Produzir leite é muito fácil e muitas pessoas são seduzidas pela rapidez com que se pode iniciar a produção e principalmente pela receita mensal que se pode alcançar quase que de imediato. E mais, não existe a preocupação nem os custos de se  vender o produto, algo que se torna a razão de sucesso ou fracasso da maioria dos demais negócios neste mundo.  Tudo que você consegue produzir as empresas compram e pagam religiosamente e mais, quanto mais você produzir melhor a remuneração por litro de leite que você recebe. Tudo parece maravilhoso e ao lado do petróleo e das drogas ilícitas, o leite parece ser um negócio fabuloso. O verdadeiro ouro branco.

Mas como diz o velho ditado, quem não nasceu para o ofício não se estabelece, o negócio do leite é uma armadilha irresistível, que leva muitos amadores bem intencionados a mergulharem no abismo. O fracasso ronda permanentemente o negócio, pois os preços são voláteis, manipulados pelos Laticínios ao seu bel prazer seguindo uma lógica desprovida de qualquer coerência de tal forma que ao longo de uma década o preço médio por litro pouco varia enquanto os demais insumos necessários para se produzir o falso ouro branco, tem aumentos de preços da ordem de 200% a 300%. 

Mas, tudo isto será discutido detalhadamente nesta série que pretende levar ao àqueles que pretendem se enveredar neste negócio caminhos a serem trilhados e muitos outros a serem evitados.